segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Reinício

A aurora surge, certas histórias não param de acontecer em nós e a segunda-feira fica sendo até um dia bonito, afinal representa o espaço maior até a próxima segunda-feira, como me disse um vizinho amigo no elevador, logo cedo. O céu azul colabora para que as pessoas se amem com o olfato e andem velozes, afastando-se do tempo que se arrasta, ao distrair-se com a ciclofaixa despida de ciclistas. E a aurora tinge o azul de alaranjado e o universo se rejuvenesce, permitindo que o silêncio possa ser ouvido.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Coxinhas

Coisa curiosa essa dos perfis. Ontem o Luís Fernando Veríssimo tratou disso, elencando algumas manias que moldam as feições das pessoas e constituem o reflexo de seu jeito de ser. Lembrei-me de outras, quando fui molhar a escova de dente, depois de já ter colocado a pasta. Será que todo mundo molha? E aí surgiram outros tantos issos ou aquilos: ler o jornal aberto sobre a mesa ou dobradinho, caderno por caderno? Ovo frito duro ou mole? Churrasco ou apenas peixes e saladinhas? Assistir TV com luz acesa ou apagada? Caneta preta ou azul? Dormir de frente, de lado ou de costas? De meia ou não? Refri normal ou light? Mandar corrente de orações ou apagar esses e-mails mesmo sem ler? Chorar até vendo novela ou não? E por aí vai; no entanto, todas essas questões já foram feitas e respondidas, menos a que se relaciona ao quesito “coxinhas”. Eu adoro uma coxinha (apesar das milhares de calorias que ela tem!), mas começo a comer pelo lado mais gordo, cheio de recheio; será que tem alguém que deixa essa parte melhor para o fim e começa pela pontinha?

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Tartarugas

Normalmente se diz que, quando trabalhamos, ficamos entediados, pois utilizamos apenas nosso lado esquerdo do cérebro, aquele conectado a nossos pensamentos analíticos, diretos, verticais, a nosso jeito racional e objetivo de administrar as pedras do caminho, pois no meio do caminho sempre tem uma pedra. Enquanto isso, o outro hemisfério, o do lado direito, o mais tímido, aquele associado à intuição, vinculado a nossos pensamentos divergentes, flexíveis, místicos, divertidos, parece ficar em repouso, aguardando um convite para manifestar-se. Essa peça a vida não me pregou: sinto-me numa situação absolutamente inusitada como a de uma tartaruga em cima do poste, pois meu trabalho sempre consistiu em mergulhar nas entrelinhas de tudo o que existe por escrito, em detectar metáforas e externá-las, provocando outros lados direitos de outros cérebros e libertando-me da linearidade da mesmice cheia de princípios cotidianos, como aquele que determina que uma tartaruga definitivamente não pode ser vista equilibrando-se em cima de um poste. Pois é, acabei de conhecer agora o significado dos tantos olhares das tartarugas que há muito coleciono e que têm um lugar de destaque nas minhas prateleiras envidraçadas!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Enredos

Com o acontecimento nas mãos, saí com aquele sorrisinho cheio de nuvens. Chorava sem fazer caretas, pois a fatalidade nos faz invisíveis. No entanto, não se assimila nada se o coração não está presente e aquela ideia de que um ama e o outro se deixa amar fazia-me tropeçar nas pedras dos vocábulos. Meu silêncio resignado, porém, ocultou mais ainda a desarmonia das mentiras insondáveis que, vagarosamente, fui construindo a seu redor.
Tudo fora tão cuidadosamente planejado, que o mundo lhe entrara porta adentro, não lhe oferecendo possibilidade de retorno. Você parecia domesticada e a vida, fonte de gozo perpétuo. Entretanto, existia demais, sentia demais. Olhava-me com seus olhos redondos e arregaçados, compondo enredos cheios de acordes que eu não compreendia. Você era fotografia muda e não proferia frases, mas cantarolava melodias ternas. Meu espírito preconcebido não se deu conta da mudança: os dias passaram a ser quadriculados e tornaram até nossas roseiras mesquinhas. Você planou na transparência de seus pensamentos e eu fiquei emoldurado no porta-retrato da sala de jantar.
Foi quando a música fez as paredes desabarem. Música soletrada pelas palavras que, pouco a pouco, você quis registrar naquelas folhas que o tempo cuidará de amarelecer. E enquanto seus pensamentos sonharam fábulas delicadas, que a conduziram para fora de meu egoísmo, sua atenção desatenta tudo anotou e construiu uma longa distância no tempo de expectativas perfumadas.
Agora, ciente de que lutam melhor os que têm sonhos melodiosos, desejo voltar e contemplá-la, para, quem sabe, um dia me tornar protagonista de sua mais bem acabada história, aquela em que a única possibilidade é encarar a verdade a cada acorde e o amor, a cada respiração.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Placas

O lugar era minúsculo, mas a comida, digna de aparecer como finalista e de ser registrada em todas aquelas colunas de gastronomia cuidadosamente emolduradas e estampadas na parede. Minha sorte é que sentei num canto de onde observava o movimento todo, as explicações de cada um dos pratos premiados, a cara de expectativa de quem esperava na calçada, sob a árvore de tronco bem curvo, como se ela também já estivesse cansada de ficar ereta como convém a toda árvore; no entanto, dali também eu podia ver claramente a placa da Rua Abílio Soares, nítida através das vidraças enfumaçadas com o calor do burburinho de dentro em contraste com o ar gelado de fora. Aquela placa ainda fazia parte de minhas últimas lembranças, quando ouvi com deleite a história do filho de 15 anos que, em sua cidade natal, resolveu homenagear o pai com uma placa de rua. Contou que mandara fazer uma meia dúzia delas com o nome do homenageado e colara-as nos principais postes e paredes, em lugares bem visíveis, como convém a toda placa. E que fora às companhias de luz, de água, de gás, de telefone, dizendo em cada uma delas que havia problemas de iluminação naquela rua, que lá as ligações não se completavam, que as torneiras estavam secas, e tudo mais que sua fértil imaginação bolava para embolar a lista dos atendentes que não achavam nas suas listas o nome da dita rua, mas anotavam o endereço e prometiam o reparo com a presteza que convém a tais companhias públicas. Há mais de quarenta anos naquele lugar o filho continua reverenciando o pai, então eu fiquei pensando que “se fôssemos imortais, poderíamos adiar todas as coisas” como já dizia o médico Viktor Frankl, que sobrevivera a um campo de concentração, mas nossa finitude nos obriga a observar que a vida é agora; assim, ela espera que nós confeccionemos placas para registrarmos nosso espaço e que deixemos nosso legado estampado nos muitos postes, paredes e corações, com letras bem graúdas e nítidas, como convém a todas as histórias de quem algum dia pensou em criar uma placa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pique-pique

Dia de aniversário é momento de abrir uma brecha na tensão do mundo e respirar trazendo o ar lá de dentro, aquele ar puro que embora recém-nascido tornará o ambiente mais colorido, mesmo que isso aconteça brevemente durante o período de apenas 24 horas. E essa energia positiva vai atrair outras e essas outras mais outras e tudo isso vai se interceptar e se modificar com um sentido mais harmônico, mais aprazível e mais feliz. E por isso dia de aniversário deve ser sempre festejado com muito pique-pique e com a alegria de saber que a vida merece sempre uma comemoração.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cães

E por falar em epifania, vieram-me à lembrança aqueles mais de 100 dálmatas, de um dos primeiros filmes a que assisti, na década de 60 (agora há outra edição dele mais recente), saindo da tela para povoar minhas quimeras: prestes a virarem casaco de pele, eles se organizaram e desafiaram a prepotência e a crueldade de maneira muito determinada, terna, comovente. Comecei a gostar de cinema ali, torcendo para aqueles cãezinhos que se faziam contemplar, vestidos de branco e de preto; foi também com eles que tive que aprender a me controlar para não subir na cadeira de tanta emoção no meio do filme e que descobri que há muitas estratégias para camuflar as lágrimas de tristeza ou de alegria diante do telão, mas que isso não tem importância alguma. Comparáveis a eles, a Kelly, que nos trouxe o periquito amarelo no focinho, sem um único arranhão (vai ver que foi por isso que nos acordou para vê-la fechar os olhos, afinal, tinha esse direito!) e a Baleia, do Graciliano Ramos, que sonhava com preás. Claro que atualmente o desastrado Picolé tem tentado entrar nesse rol, seria injusto não lembrar dele, mesmo com todos os estragos cotidianos irremediáveis...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Epifania

Quando a mãe da garotinha de dois anos perguntou a ela na saída da escola se alguém tinha lhe batido, ela prontamente respondeu “eu só me defendi” com sua carinha marota e aquele risinho terno de quem curiosamente já aprendera a lidar com os desaforos da vida; nós que presenciamos o diálogo sentimos uma espécie de epifania que nos tirou instantaneamente do chão para tornar a nos colocar ali no minuto seguinte; já éramos naquele momento diferentes daquelas pessoas que fôramos alguns minutos atrás apesar de não termos saído do lugar. Pensei então que às vezes quando nos sentimos frágeis como cristais de gelo e nem ouvimos o perfume das azaléias brancas de beleza estonteante no jardim, de duas uma: deveríamos ficar parados na friagem de nossas angústias e saborear aquela espécie de solidão que sempre há por baixo de nossas superficialidades cuidadosamente polidas ou então deveríamos chutar as pedras pontudas de nossos caminhos sem medo de machucarmos o dedão do pé. E então se a vida espantar-se com nossa atitude e nos questionar sobre pedras e solidões, deveríamos dizer-lhe com cara marota e riso terno: “eu só me defendi”.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cheiros

O cheiro do som é bom, a menos que seja o tum tum tum do bumbo que toca sem compaixão; a música perde a melodia e invade os tímpanos com um batuque surdo e acre, que obriga a gente a colocar o primeiro CD que aparece na frente para despistar aquele espantalho de som com cara de monstro auditivo. E a melodia do CD encobre o tum tum tum azedo e fininho que entra nas fissuras da alma e fica tudo misturado, embaralhado, desconjuntado, até que um tímido cheiro de flor de laranjeira vai chegando e impregnando com gosto de bolo de limão com aquela crosta branca e delicada de açúcar por cima. E aí o tum tum tum audível é apenas o do coração que cantarola ritmado, pronto para distrair a vida que chega aflita para comemorar a noite com cheiro virgem de lua nova.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Mãos



As mãos do jeito que elas gostam: escrevendo, escrevendo... Foram tantas fotos lá no Curso de Escrita Criativa da Casa do Saber, mas justo esta de minhas mãos se estampou na folha do caderno Mais! de ontem. Coincidência? Estímulo para elas continuarem a escrever, brincando de subtextos e de discursos com propósitos surpreendentes, mesmo que nem cheguem perto disso. Incrível como as prioridades despontam e interceptam-nos os caminhos; não há como deixar de vê-las, ouvi-las, tocá-las, sentir-lhes o gosto e o perfume. Inevitável.

sábado, 15 de agosto de 2009

Genocídio

Certa vez, em São José do Rio Pardo, a redoma de vidro que protege a cabana onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões causou-me comoção. Há pouco tempo, depois que expliquei o sentido da revolta de Canudos, comentei sobre a denúncia do crime e contei sobre a alegria de conhecer aquele espaço que mais parece um santuário, um aluno me disse que iria ler o livro. NOOOSSA! Segundo Walnice Nogueira Galvão, a professora da USP especialista na obra euclidiana, se isso fosse pedido na escola de hoje, seria considerado um genocídio! Fiquei emocionada com o interesse solitário e tive certeza de que se de fato esse genocídio acontecesse, o futuro agasalharia o Brasil cheio de frio, nu de valores e de tradições nada respeitadas. Pela internet, ouvi ontem, maravilhada, os debates organizados pelo Estadão sobre o legado do escritor e me emocionei de novo com o que Lilia Schwarcz disse sobre “O Homem”, a parte do meio da obra pilar de nossa nacionalidade: o conhecimento desse capítulo é “fundamental para que o Brasil comece a se apalpar”. De fato, aqui onde há mais editoras que livrarias, precisaríamos mesmo sentir a mesma vertigem que levou Euclides da Cunha a criar essa obra missionária e, tal como as plantas do sertão, precisaríamos reexistir, precisaríamos nos regenerar de dentro para fora de um jeito meio antropofágico e aí quem sabe reaprenderíamos a pulsar e a desejar, apalpando-nos criticamente. Hoje é um dia significativo: há cem anos morreu o homem comum que se tornou grandioso porque conseguiu ver e dizer o que pensava numa espécie de poema sem fim. Que o genocídio preconizado aconteça!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Janelas

Cada um que faça a sua parte, mas como vivenciar a podridão que reina neste país traz-nos a todos uma frustrante sensação de impotência, pelo menos me deliciei ao ler Ignácio de Loyola Brandão dizendo que “acho que quando ele (Sarney) chega para a sessão da ABL, a estátua de Machado dá-lhe as costas, para não sentir vergonha”. Com sua peculiar racionalidade, imaginei o bruxo do Cosme Velho olhando para as paredes, discorrendo sobre a lei da equivalência das janelas e estabelecendo que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra para que a moral possa arejar a consciência. Atualmente, em nossas rotinas despudoradas, sabemos que as chaves do cadeado dessa outra janela estão à disposição, mas não há ânimo, empenho nem interesse de fazer entrar ar puro. Com sua ironia ferina, Machado já nos tinha alertado sobre isso.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Kir Royale

Na tirinha do Calvin de hoje, o menino surpreende o pai pintando um quadro. Olha, analisa o que está na tela e diz que como pintor o pai é um ótimo tocador de gaita. O pai faz que não liga, mas certamente ouve um som de gaita com gosto de ferrugem. Som de ferrugem que é ácido e queima. Muitas vezes a vida acorda com esse espírito de Calvin e a gaita toca forte e a ferrugem sonora persiste pelo menos até alguém contar com detalhes uma história de amor que começou com um Kir Royale, para que o gosto ferrugento se transforme num inebriante aroma vermelho de cassis.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Pombos

Quando o lençol flutuou por uns instantes, perto do teto, senti uma harmonia boa de vida ordeira, calma, satisfeita. O aroma perfumado da roupa de cama recém saída da prateleira preencheu meus pensamentos e eu pude concentrar-me na textura daqueles milhares de fios e recordar-me da história das caixas de pombos do Cairo. Certa vez, na terra dos faraós, visitando um bairro de classe média, surpreendi-me com as casas completamente sem pintura exterior, no teto das quais havia colunas e as tais caixas de pombos. Lá as pessoas moram a vida inteira nos mesmos lugares, vão colecionando móveis e coisas importantes (com muito dourado) e imprescindíveis para sua felicidade; as paredes de fora não condizem com o exotismo que normalmente existe e é valorizado dentro dos lares. Como as famílias crescem, a estrutura dos prédios já aguarda por isso, para que os filhos morem perto dos pais, daí as colunas. No entanto e o mais sugestivo são os pombais: pombos são afrodisíacos e o dia de devorá-los é sempre 5ª feira, ou seja, também dia de dormir com a mulher. Curioso é que o homem pode ter 4 mulheres; 5 mulheres dá cadeia. Se quiser muito uma 5ª, pode pedir divórcio de uma das outras 4; entretanto, se houver “vaga”, aquela que foi embora pode voltar, a não ser que já tenha sido “devolvida” 3 vezes. Quanto à mulher, ela não pode se divorciar, mas pode pedir divórcio, se o homem não “comer pombo” com ela durante 6 meses. Costumes diferentes, hábitos inconcebíveis para nós, mas necessidade comum de sentir aquela harmonia boa de vida ordeira, calma, satisfeita.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tricô

Somos pobres de histórias surpreendentes e o homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado. O tempo está sempre atropelando o imaginário, ninguém mais tem paciência de ouvir, ninguém quer saber de contar, só de correr atrás do tempo. Daí me surpreendi quando saí a pé para comprar minicebolas e vi aquela senhorinha sentada no muro em volta da árvore da rua. Tricotava e ouvia um “o que você vai dizer, Dorotéia?” no minúsculo radinho de pilha que com ela conversava, no colo; foi muito rápido, eu andava voando, meu tempo era curto, mas percebi que participava também da conversa seu cãozinho de pelo eriçado e coleira solta que ia de lá para cá. Talvez ele também quisesse saber o que Dorotéia iria dizer. Ocorreu-me então que para Walter Benjamin a arte de contar histórias se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a narração; que os que por ali passavam não se davam conta de que aquele era hábito em extinção: a senhorinha tricotava ouvindo uma história e tinha uma cara alegre de expectativa boa; no entanto, sua presença parecia transparente, como se ela não existisse, como se o que Dorotéia fosse contar não interessasse para a tediosa e alucinada corrida do tempo. Que vontade de saber a história de Dorotéia!

domingo, 9 de agosto de 2009

Laços

Essa minha mania de arrumar armários vem comigo desde muito cedo. Desde que eu usava aquele uniforme marrom de saia pregueada e camisa engomada, presa ao pescoço com um enorme laço também engomado preso à camisa. Tinha prazer de observar tudo no lugar e não ligava de fazer isso para todos naquela grande casa de família grande. Parecia que o sabor da vida ficava diferente se as coisas estivessem harmoniosamente postadas. Meu pai não cansava de admirar a meticulosidade desses atos e valorizava cada detalhe e percebia nuances que às vezes passavam despercebidos até mesmo por mim. Saudade daquele tempo em que ele me levava para o colégio e me dizia o seu rotineiro desce, Tê! com uma ternura doce que me fazia começar bem o meu dia de uniforme marrom de saia pregueada. Hoje ele não está mais aqui, mas aquele doce desce, Tê! ainda é música em meus ouvidos, para que a vida continue apresentando-se sempre vestida de laços engomados, presos aos meus sonhos e às minhas alegrias.

sábado, 8 de agosto de 2009

Rebuliço

Senha provisória. Jardim pisoteado. Deck divertido. Pulseira de plástico. Jantar interrompido. Quintal arejado. Cerveja quente. Atitude correta. Conversa truncada. Vale saída. Mesas na grama. Harmonia desfeita. Saúde preservada. Vida suspensa. Fiscal amarelo. Corre-corre criativo. Risada engolida. Ar respirável. Prazer postergado. Árvores cinzentas. Cotovelos no balcão. Cinzeiros na calçada. Conduta higiênica. Poluição sonora. Pulmão arejado. Liberdade encolhida. Cabelos cheirosos. Comida fria. Preocupação pertinente. Fotos delatoras. Vigilância cuidadosa. Chama abafada. 1984. Bueiro entupido. Grande Irmão. Radicalismo afoito. George Orwell. Rotina tola, chamuscada, insípida, aprisionada. Terra azul?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

João e Maria

A enorme lua cheia estava ali, havia no ar um aroma de alecrim e eu me lembrava da canção que dizia que “agora eu era o rei e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz”; deveríamos então sair e comer um beirute com suco de tangerina em vez da sopa light cotidiana para apreciarmos a noite convidativa àquele nosso faz-de-conta; deixaríamos todos os jornais trancafiados em casa aprisionando os discursos mentirosos e aproveitaríamos o cheiro das plantas, ainda bem que havia muitas plantas e árvores e flores em nossa rua, que cheiro bom! Caminharíamos de mãos dadas olhando as vitrines cheias de panelas vermelhas e de facas de churrasco, como se todos os pais de todo mundo tivessem perfil de cozinheiro e gostassem de fumaça e de carvão e falaríamos de a e de b, só para dizer que estaríamos falando de alguma coisa, pois o importante era andarmos de mãos dadas vendo que a cara da lua ficava cada vez mais distante; tudo isso seria possível porque “a gente já não tinha medo, no tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido.”

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Fotos

Dez anos em forma de fotos mudas embaralharam-se de uma tal forma, que uma tarde inteira não foi suficiente para ordená-las pelo menos na categoria de anos. Algumas tinham etiqueta, mas a maioria dançava à minha frente, como naquele jogo de lince que as crianças tinham quando eram pequenas; quando eu achava a foto, o lugar em que ela deveria ficar sumia e os momentos dessa década misturavam-se labirinticamente, sem tolerância. Os pequenos retângulos, então, adquiriram voz e deram um nó no tempo, ao perceberem que os álbuns para onde todos deveriam caminhar, segundo a comportada linha das recordações, estavam mesmo fadados ao desuso... Tive paciência com elas, no entanto, e distingui muxoxos, caras de sorriso largo, poses às vezes artificiais, espontaneidades engraçadas. Percebi que não há mais espaço físico para tanta foto bem tirada ou mal tirada ou ainda não sei por que foi tirada, afinal, nunca se registraram tanto os momentos que ficam para sempre guardados na fria memória do computador, sem que alguém tenha oportunidade de contemplá-los. Emoções são enquadradas para não serem esquecidas, mas emboloram, amarelecem e tornam-se obsoletas; vou resistir ao descabido descontrole de apertar botões a olho para produzir clichês em série (acabei de me lembrar das engrenagens de Tempos Modernos de Chaplin), mas vou render-me à anacronia dos álbuns. Depois de colocar num deles, com reverência, a última foto já revelada, que está à minha espera e que me olha com melancolia, passarei a estampar as que ainda estão por vir em fotolivros ternos, para continuar a entrever caras de perfis fingidos, manhosos, divertidos, encantadores.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Vírgula

Gertrude Stein, ontem pela primeira vez li um trecho da Autobiografia de todo mundo que ela escreveu com perspectiva cubista. Com um discurso aparentemente meio abobalhado, meio infantil, mas muito crítico, ela analisava o valor das palavras e a mudança que ocorre quando essas palavras passam a ter valor monetário no mercado das palavras. E eu fiquei achando uma graça escrever imitando o estilo dela quase sem vírgulas falando das ideias que vêm chegando e vão indo embora sem pedir licença dando lugar para aquelas outras que vão se embaralhando e formando um labirinto para quem está registrando tudo isso mas também para o leitor atônito com a desfaçatez de alguém que ficou com vontade de ter rompantes metalinguísticos e que certamente vai sair por aí procurando aquela Autobiografia que também lhe pertence, vírgula, pois é de todo mundo.

Manteiga

Caí de costas quando vi que, na receita do pastel de belém do chef Olivier Anquier, vai um quilo de manteiga amolecida para um quilo de farinha, na massa, além do recheio com nada mais que 18 gemas de ovos, 18 colheres de açúcar e ainda um litro de creme de leite fresco!! Não é à toa que que aquele pastel vira um manjar dos deuses! Mas um quilo enorme de manteiga?! Agora vou ter que refletir muito antes de cogitar repetir a dose diante daquele formato arredondado de massa folhada; nossa, dá até água na boca. E com isso me lembrei do Fernando Pessoa, sentado em frente à confeitaria A Brasileira, no Chiado de Lisboa! Fiquei imaginando todo mundo que aparece ali para tirar foto ao lado dele, sentindo o aroma inconfundível do que sai do forno lá de dentro, sem preocupação alguma, sem filosofia, como também queria o poeta: "Leva-me longe, meu suspiro fundo,/Além do que deseja e que começa,/ Lá muito longe, onde o viver se esqueça / Das formas metafísicas do mundo."

domingo, 2 de agosto de 2009

Panquecas

Comédia romântica! Daquelas bem água com açúcar, que só recebem atenção quando não se tem mais nada para fazer, numa noite de sábado gelado com lareira. A coisa complica se o título ainda tem uma tradução que não ajuda: Eu, meu irmão e nossa namorada. Narizes bem torcidos. Mas Marie (Juliette Binoche), que adora fazer panquecas, faz saltar aos olhos uma ternura invejável, e o enredo (grandemente previsível!) discute particularidades rotineiras de gerações que se chocam e se odeiam e se amam. A pureza de sentimentos nunca vai perder a vez e inspira uma alegria boa que convida a assistir tudo de novo, sentindo no ar o perfume doce da canela...

sábado, 1 de agosto de 2009

Risoto

Havia nozes dentro daquele risoto! E muito funghi. Shiitake, shimeji, não sei bem, mas ela disse que eram três. Havia também uma crocância deliciosa e um aroma que invadia o ambiente colorido e tão cheio de misticismo em miniaturas. Degustávamos cada bocado com reverência, para que os momentos aprazíveis daqueles quinze anos pudessem caber ali, no espaço da porcelana pintada a mão. Estávamos felizes saboreando nossas lembranças...