quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Isopor


Ele era alto, esguio, e tinha pele tão alva que dava para ver algumas veias azuis; olhava fixamente para a moça que fatiava o peito de peru que ele solicitara, todavia nem uma lasca de alegria habitava seu sorriso. Nem havia sorriso, mas perplexidade, pois as fatias eram arremessadas na bandejinha de isopor, como se não fossem importantes, como se não tivessem a dignidade de um naco de peru light. Então os cabelos branquíssimos não tiveram alternativa a não ser reclamar: cada uma delas deveria estar sobreposta em relação à outra, numa pilha ordeira, comportada, sem dobras, sem incorreções. A voz era baixa, educada, compungida. A reação da moça foi arrogante: “da próxima vez que querer assim tem que pedir antes!”. Logo me vi sendo amiga dele e percebi que a brancura da pele tingia-se de um rosa solitário, mas não menos altivo. Vi os olhos claros pestanejarem algumas vezes por detrás das lentes transparentes, enquanto outras fatias eram raivosamente cortadas e novamente jogadas com descaso em outro pedaço de isopor, mas agora em duas pilhas paralelas. Mantive com ele uns fiapos de conversa e percebi que sua alma escorria antes da hora, doída e indignada com o desarranjo nada apresentável de sua encomenda. Depois a cena acompanhou-me por um bom tempo e também a minha alma pareceu escorrer fora de lugar, doída e indignada com a grosseria inadmissível da atitude dela. Os olhinhos úmidos daquele senhor da fila de frios parecem ainda caminhar em minha direção e me explicar que pessoas velhas são aquelas comparáveis a bandejas de isopor, descartáveis. Foi aí que descobri: ele estava na fase da vida entendida como velhice, mas certamente não era velho.

(ilustração: http://fatimavenutti.blogspot.com/2008/07/velho-homem-velho-pai-ftima-venutti-o.html)


sábado, 26 de setembro de 2009

Choque

16/09/2009 – FOLHA DE SÃO PAULO
Invenção suíça permite recarregar celular com calor corporal do usuário
da Efe, em Genebra (Suíça)
Recarregar o telefone celular com o calor do corpo de uma pessoa pode se tornar realidade muito em breve graças a uma invenção que venceu nesta quarta-feira (16) o prêmio "Swisselectric Research Award 2009", concedido pelas companhias elétricas da Suíça.
O inventor, Wulf Glatz, um cientista de 35 anos da Escola Politécnica Federal de Zurique, uma das mais tradicionais da Europa, desenvolveu um gerador que transforma o calor em uma corrente elétrica. Para isso, utiliza a diferença de temperatura entre a fonte de calor e a do ambiente, o que não gera emissões de gases poluentes.


- Cadê o calor de seu corpo capaz de carregar o celular?

Ela estava indignada com aquela desculpa desmedida e desatou a derramar uma aguaceira daqueles olhos cheios de discórdia. Minha prioridade eram os geradores. Só os geradores. Os fantásticos geradores que proporcionariam economia nas contas de luz e que brecariam os resultados do efeito estufa. Eu só enxergava engrenagens, só ponderava sobre gases poluentes, só projetava inventos politicamente premiados, isso é o que ela achava.

Conhecemo-nos na Poli e é certo que desde aquela época eu não conseguia escovar os dentes sem pensar em corrente elétrica. Desde aquela época, ela parecia estar à beira de um colapso de tantos ciúmes que sentia dos gases poluentes e dos sistemas de calefação. Claro que não posso me queixar, pois ela sempre fora testemunha das sutilezas ideológicas dos meus inventos e aprendera a avaliar filosoficamente a importância de suas repercussões.

Só que cientista não combina com sala de visitas da casa da sogra! Disso ela nunca teve a devida dimensão e meu tiro saiu pela culatra. Há tempos, vinha explicando a ela aquela minha ideia top de gerar energia com o calor do corpo. Aliás, ela já estava estranhando minha mania de termômetros e incomodava-se com as milimétricas medidas monitoradas por aquele minúsculo aparelho vip, minha mais maturada invenção, responsável por mostrar ao mundo que mentes privilegiadas conseguem mirabolantes resultados com mestria. Contei-lhe sobre ele entre taças de vinho e carícias sedutoras que eu também sabia fazer bem e de que ela gostava tanto.

Era domingo, véspera do início da primavera e eu lhe prometera que compareceria à festa de 80 anos de minha sogra dileta no dia seguinte, claro que sim. Só faltavam alguns retoques no relatório que eu deveria enviar à Suíça, para concorrer ao prêmio “Swisselectric Research Award 2009”. Seria a coroação de meu êxito que, para alegrar a filha, seria dedicado à mãe. Sairia da Cidade Universitária com tempo de sobra, portando um vaso de rosas brancas e meu inteli mimo gente. Já estava com tudo engatilhado, mas as flores me olhavam com cara morna de baterias subversivas.

Então, quando fiquei preso do lado de lá da Marginal, por causa da chuva sem dó, não atendi às suas milhares de chamadas e nem me importei de perder a festa. Ali mesmo no carro fiz mais alguns gráficos, que esclareceriam sobremaneira as supostas dúvidas que poderiam surrupiar minha condição de sustentáculo surpreendente da preocupação ecológica e que me afastariam de meu merecido reconhecimento global. Entrando em casa, logo vi seus olhos grandes que luziam no escuro perguntando-me:

- Cadê o calor de seu corpo capaz de carregar o celular?

Simplesmente respondi, com a máscara mais sonsa que eu consegui dependurar na cara, que a corrente elétrica fora tanta, que tinha dado curto!



sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Hóspede



A ficção pode recriar a realidade ou até espelhá-la. Também pode fugir dela, mas encontra ali seu ponto de partida. Fiquei então intrigada com a comparação que imediatamente se estabeleceu, para mim, quando relacionei este antológico trecho de Iracema, romance de José de Alencar, ao caso Zelaya: - “Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flor de seu corpo, ela morrerá; mas o hóspede de Tupã é sagrado; ninguém o ofenderá; Araquém o protege.” A virgem é Iracema, metaforicamente entendida como a natureza brasileira; o hóspede é Martim, guerreiro branco representativo do colonizador português, que se surpreenderá com o exotismo dessa natureza (e de Iracema), nos idos de 1500, e que procurará respeitá-la e reverenciá-la. O escritor cearense teve o cuidado de idealizar o colonizador, já que era época pós-independência e o Brasil pleiteava encontrar um espaço no cenário mundial: teria que começar a andar com as próprias pernas. Pois bem, ocorre, no romance, que a virgem dos lábios de mel (terra virgem) “abandona ao guerreiro branco a flor de seu corpo”, após oferecer a ele o licor da jurema, alucinógeno, que só ela, a sacerdotisa de Tupã, sabia preparar. Por isso ela morre, de acordo com as crenças indígenas; Araquém, seu pai e pajé, já o prenunciara. No entanto, o guerreiro aliado dos índios inimigos dos Tabajaras, a tribo de sua amada, este é protegido, pois é hóspede de Tupã. É a natureza brasileira cheia de encantos desvirginada pelo valente guerreiro, após ser seduzido por ela; é o escritor e político Alencar mostrando ao mundo a chegada do colonizador respeitoso e íntegro, que deflora ingenuamente a cultura brasileira. Ironia de Alencar, de cuja crítica nada escapava? Será? Um século e meio depois, agora na realidade, Manuel Zelaya é hóspede na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, Honduras, e como tal, merece todas as garantias.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Menina


Levantei cedo com cara de pesadelo e fui aos trancos até a torneira da pia. Os pingos que pingavam sem compaixão me tinham dado uma trégua, ufa! Senti que aquilo era um bom presságio e tive coragem de olhar para o espelho e olhei. Olhei e abracei logo minha escova de dentes com a volúpia de um amante e carinhosamente coloquei nela uma fina camada daquela pasta azul com gosto fresco de flúor. Ela era minha aliada e seus movimentos de vaivém contínuos me desobrigavam de olhar para frente; entretanto, minha boca espumava e não me restava outra escapatória: teria que abrir a torneira para um bochecho. Abri, olhando para o pé descalço. Depois, febrilmente fui levantando a cabeça me doendo todo, sentindo alguns pingos de chuva choverem cada vez mais torrencialmente e de novo a vi. A casa estava lá, na beira do córrego, branca, branca, e a chuva ainda não chegara ali. Então a menina apareceu na janela e acenou para mim. Não saí do lugar e ela acenou de novo, com aquele seu sorriso gelado de menta. Foi quando corajosamente decidi e avancei no meio do aguaceiro, satisfeito com minha determinação matutina. No entanto, assim que sentiu os primeiros respingos da chuva, a casinha branca da beira do córrego deu no pé; delirando de paixão, dei outro abraço na minha escova de dentes e olhei de novo, com a perplexidade de minhas retinas encharcadas: minha menina tinha sumido para sempre, deixando atrás de si apenas um perfume de hortelã.

(ilustração: renatoartes.wordpress.com)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Desembargador




O cão já tinha nome e existia apenas em nossas imaginações; já o procuráramos umas três vezes e ele ainda não estava pronto para apresentar-se, ainda não tinha sido libertado para conhecer seu novo lar. Então naquele sábado paramos lá de novo e em conjunto olhamos para ele e sentimos que aqueles olhos verde-azulados estavam aguardando-nos; cheios de ternura eram seus dois meses e pouco cor de camurça, que se confundiriam com o acinzentado do sofá. Ele chegou ao sítio cheio de graça com sua cara fina e séria e procurou o aconchego dos tapetes mais confortáveis; latia pouco e dormia muito, andava com elegância com seu porte esguio. Parecia querer saber mais sobre nós e inspirava-nos serenidade própria de quem ama simetrias e contrastes. Chegou neste tempo de Primavera o nosso Desembargador.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Jabuticabas


Parecia com uma outra qualquer,
mas aquelas florezinhas, quantas!
E todos os dias
a menina pequena que eu era
ia conferir com espanto
a árvore frondosa
que gostava de água límpida
que pingava gota a gota.
De repente, bolinhas verdes
da noite para o dia surgiram grudadas
e eu fiquei parada, estática
tentando entender o inexplicável.
Surpreendi-me, porém,
quando naquela manhã
o verde ficou negro
reluzentemente negro
magicamente negro.
Havia ali centenas de espelhos
revelando meu doce espanto,
porque aprendi sem querer
que o brilho era doce,
sumarento.
Só bem mais tarde soube que há brilhos e brilhos
e que, infelizmente,
nem todo brilho sedutor
é doce
porque nem sempre
é cultivado gota a gota.

sábado, 19 de setembro de 2009

Meteorologia

Chuva garota. Caía timidamente e mal molhava as pedras endurecidas pela aridez do tempo e de todos aqueles nervos ressequidos. Era morna, inconsistente, ávida por tornar-se um temporal arrasador, memorável.
O solo seco rejubilava-se com aquele sopro úmido; o tédio enfurecido da rotina cinzenta tingia-se de um colorido suave e a chuva menina salpicava aqui e ali com graça e ternura, seguindo o curso do destino a ela confiado.
Era esperada há muito. Ele sabia necessitar daquele afago e saiu pelas ruas empoeiradas a seu encontro. Reconhecia-se incompleto, incompetente. Lágrimas redondas misturavam-se ao tênue sussurro dos sutis respingos de encantamento daquela chuva ainda virgem de maus presságios.
Foi quando tudo se transformou. Invadiu-o uma tempestade de partículas de pó ainda mais ressequidas, e seu ódio tomou gigantescas proporções. ZAP! Era só voltar a seu cotidiano regrado, esquecer a chuva agora já não tão plácida. Não havia necessidade de lavar o chão de sua alma, de limpar os vidros de sua imaginação embotada. As palavras continuariam ali, fechadas em seu comodismo peculiar, acostumadas que estavam à pequenez de seu empenho e de seu engajamento.
Doce martírio. Desencadearam-se e fluíram aquelas palavras febris, quebrando as vidraças, saltando para fora e apreciando com sofreguidão o cheiro de terra molhada. Nada mais as deteria. Nuvens e mais nuvens maciças contorciam-se no céu, flores brotavam no asfalto e a chuva, finalmente adquiria feições sensuais e irresistíveis.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Chuteiras

A alegria dos outros lhe pesava. Tinha olhos moles, que jamais ousaram dizer frases; talvez por isso seu rosto parecesse sempre assustado. Mas era apenas um menino de oito anos que não conseguia pensar, a não ser com os pés. Atrapalhava-se com números e assombrava-se com palavras que deveriam significar muito, mas que, para ele, não valiam um único chute de pé descalço.

Fora escolhido para participar daquele projeto educacional implantado pelo prefeito de sua minúscula cidade do interior. Ganhara todo material que lhe seria necessário para tornar-se um cidadão respeitável. Ganhara também o uniforme azul de faixa vermelha, mas, diferente dos demais, a força iluminadora da razão servia-lhe muito pouco e seus resultados eram quase sempre insatisfatórios.


Não tinha mãe e os seis irmãos já eram todos mais velhos; trabalhavam com o pai na pequena borracharia. Assim, quando surgiu a vaga e sabe-se lá como o menino frágil conseguiu passar no teste da prefeitura, seu pai encheu-se de alegria, pois não tinha tempo de cuidar daquele filho derradeiro. Frustrado com seu desestímulo, proibia-lhe o joguinho no terreno baldio, apesar das súplicas de seu olhar medroso. A vida sempre pareceu incomodá-lo, a não ser que tivesse uma bola nos pés. Nesses momentos, à semelhança de um malabarista, ganhava forças; como um gladiador, transformava o campo de pouca grama medíocre numa arena de sonhos coloridos.

Certa vez, enquanto jogava descalço, como sempre, driblando não só a atenção do pai mas também os quinze meninos maiores do time adversário, foi notado por alguém que por ali passava. Momento de contemplação muda. As sobrancelhas do homem de terno e de gel no cabelo emocionaram-se e, no mês seguinte, o menino mirrado conhecia de perto um campo bem gramado, onde ele jogava de chuteiras.

Durante os próximos dez anos, seus irmãos frequentemente assistiram aos jogos na capital onde ele se encontrava e engrossaram o coro dos torcedores que deliravam a cada falta que ele batia. Agora já não acordava mais com cara de pesadelo, mas sentia falta do pai. Eram como dois estranhos que se conheciam bem e que se amavam à distância.

Viver deve ser mesmo um descuido prosseguido e, no congestionamento das aspirações humanas, outro sujeito de gravata, mas sem gel no cabelo, espantou-se com aquele acrobata dos gramados e, ironicamente, fê-lo vestir um uniforme vermelho e azul. Levou-o para longe.

Quando um dia retornou e trocou sua antiga camisa pela verde e amarela para jogar ao lado dos grandes, o menino miúdo que crescera não se abateu; aprendera que a felicidade tem o poder mágico de transformar as pessoas. Naquele primeiro jogo, que finalmente o consagraria com as cores de seu coração, mostrou sua arte ao universo, minimizando mágoas e violências. Lutam melhor os que têm sonhos belos e isso bem sabia aquele grande empresário de pneus, um dos torcedores que o aplaudia com olhos em cachoeiras.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Clichês

Consultando O PAI DOS BURROS, agora dá pra responder na bucha e deixar o preto no branco, para não se tornar carta fora do baralho. Da maior gravidade é trocar seis por meia dúzia só para tentar quebrar o gelo. Para receber crítica construtiva, antes tarde do que nunca cada um deve ser dono de seu nariz e perceber que há uma necessidade premente, por N motivos, de saber que danos irreparáveis acorrerão a quem não valorizar esse novo monstro sagrado. Com marcação cerrada, ele aponta todo tipo de mazelas e rasga o verbo sem compaixão. Espalha aos quatro ventos com velocidade vertiginosa e sem medir as palavras, que os surrados clichês devem ser proibidos terminantemente, principalmente a quem tem o firme propósito de escrever certo por linhas tortas, já que muitos são os chamados e poucos os escolhidos. No entanto, ser uma enciclopédia ambulante ninguém é e apesar de se ter imorredoura gratidão ao Humberto Werneck, autor desse dicionário de lugares comuns e frases feitas, sempre vai ser duro golpe se num texto que pretende ser a bola da vez, aparecerem palavras imperdíveis e que encontraram morada sólida como uma rocha nesse seu material de primeira qualidade, com o perdão da palavra.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Opções

Caminhada na segunda-feira é inevitável, mas quando cheguei ao parque, havia garoa fina e vontade de voltar. Tive que optar e fiquei. Foi quando associei-os, os personagens do filme e do livro, que comigo conviveram durante todo final de semana. A menininha de Uma prova de amor me surpreendeu; fora gerada para salvar a vida da irmã e se indignara com sua situação de transparência no mundo, só modificada quando dela foram necessários células e rins. Comoveram-me sua determinação e sua coragem de apenas 11 anos: como faria ela para jogar futebol, para tomar um drinque mais tarde? O que faria ela se o outro rim futuramente parasse de funcionar em seu organismo já tão escarafunchado? Optara por enfrentar os pais nos tribunais, mesmo que isso fugisse aos padrões normais de convivência. Mesmo que os fins justificassem os meios (aos olhos do mundo). O estudante americano de Indignação de Philip Roth me surpreendeu. Abandonou os aventais ensanguentados do açougue onde ajudava o pai - trabalhador infatigável que preferia ver o filho único dentro de uma redoma - e atirou-se à vida medíocre de uma universidade conservadora cheia de preconceitos. Aos 19 anos, também queria seu espaço no mundo e optara por não se deixar privar, mesmo que fosse taxado de indisciplinado e de antissocial. Mesmo que tivesse que morrer na guerra da Coreia. Novamente a ficção refletiu de maneira fidedigna a realidade (será?). A última frase do fantástico livro de Roth não me saía da cabeça, apesar de a chuva forte e ininterrupta daquele momento tentar desviar minha atenção: o jovem Marcus poderia ter postergado a “forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais”.

domingo, 13 de setembro de 2009

Silêncio

Com que prazer sapatinávamos naquela conversinha que respirava lenta e suavemente, como se as palavras ouvissem o som do silêncio chorido de tanta inspiração. Numa espécie de vigília matutina, buscávamos os segredos cirandantes daquele momento de ausência de som com cheiro de café e gosto de manteiga gelada; para cada gole um sussurro de caminhência e o diálogo abria-se para assuntos disso e daquilo, coisas de todo dia, de toda hora, para o que se sente e não se sabe. Coexistem sempre horas de falta e horas de preenchimento, mas aqueles instantes eram apenas de bailarismo do que enriquecia com sabor de ternura e de saudade; o perfume do ar ainda de orvalho nos transportava para aquela floresta de sequóias vermelhas de quatro séculos em São Francisco e o colorido que teimava em desacolher a rotina com textura de sábado deslocava-nos para as estradas tortuosas da Costa Amalfitana; cada minuto tem uma voz secreta e o silêncio transformava-se num lago, num oceano onde poderíamos nos deixar ficar, cheios de encantamento.

sábado, 12 de setembro de 2009

Sensações

Tenho vontade, às vezes, de copiar a idéia da Clarice Lispector e de dizer que amo a Língua Portuguesa! As palavras têm um poder de sedução tão grande, que nutrem por dentro, colorindo as imagens que são pensadas com o desenho de letras interligadas e atrevidas; daí essa mania que adquiri desde muito tempo de anotar frases, pensamentos, palavras soltas, adjetivos exemplares. Sou fã das sinestesias, da mistura dos sentidos, daquela sensação de transcendência da realidade para uma atmosfera onde o que vale é sentir, mesmo que não se entenda racionalmente nada, pois lá a razão não tem espaço e as palavras vivem em festa; lá se pode ter a noção sensorial perfeita daquele pedaço de poema do Vinícius em que o poeta sonha com anjo “de branco ventre e de brancas pernas acordadas” e pode testemunhar “cores noivas se entrelaçando”.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Tempo

Ontem o dia amanheceu puro, o ar lá no sítio parecia livre de vírus e de poeira, tinha uma delicadeza e um frescor que inebriavam e que transportavam os pensamentos e as vontades, enquanto o som do silêncio repercutia no balanço singelo das novas folhas da jabuticabeira. Havia até algumas frutas verdes nos troncos descascados, grandes e arregaladas em sua expectativa de tornar-se, mas o tempo de sua negritude brilhosa ainda estava por vir no seu devido tempo. No fim do dia, voltamos para casa e como todos os que se aventuraram a pegar uma estrada, ficamos parados no meio do caminho; à nossa frente, uma fileira interminável de pessoas ansiosas por seguir adiante e atrás de nós um imenso sol vermelho, inundando a paisagem de um colorido apreciado apenas por quem esquecesse por segundos a angústia de querer chegar logo naquele tempo de feriado alargado; sua magia brilhosa, entretanto, desfez-se no tempo previsto, no seu devido tempo.

sábado, 5 de setembro de 2009

Saudade

Conheci-a quando fizemos uma viagem à África do Sul e desde aquele tempo construiu-se entre nós um fio tênue e transparente de empatia, de sinceridade, de “conversas ao pé da cerca”, como ela gostava de definir nossa troca constante de correspondência virtual, já que ela morava em Londrina e eu aqui em São Paulo. Sabia de suas alegrias como viajar e viajar, distribuir doses generosas de carinho a todos que dela se acercavam, criar arranjos de ikebana, sentir a vida em toda sua essência nos passos do tango, amar seu marido e companheiro de toda vida, amar suas filhas e genros, amar seus netos. Falávamos de Literatura, de Arte, de Cinema, de Música, de Vida. Trocávamos longas cartas, neste tempo em que a moda é escrever textos curtos, porque o tempo assim o exige, e quase nunca nos encontrávamos. No entanto, aquele fio aparentemente frágil fortaleceu-se e formou uma teia protetora de uma amizade que certamente não termina agora, quando ela se foi. Marisa se foi e eu fiquei aqui me lembrando de seu terno sorriso na terra de leões e leopardos. Como dói!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Retrovisão

Como há muito não acontecia, dei-me de presente uma parada naquele shopping, já que passava pela porta dele. Claro que comprei algumas coisas, afinal, é impossível só ver e ficar lambendo os beiços... Enfim, com algumas sacolas saí dali de alma alegre por ter feito alguma concessão e pelo fato de eu mesma ter sido a beneficiada e nem me dei conta da chuva que devia ter desabado do céu enquanto eu me entretivera com as seduções em forma de vestidos, blusinhas, centros de mesa e artigos de papelaria; como eu gosto deles! Tentei achar um caminho mais direto e andei muito e fiquei chocada: eu não saía do lugar! Liguei então o rádio e ouvi por minutos a fio que a cidade tinha parado e que o número de quilômetros congestionados equivalia a todos os que a cidade tinha, somados e multiplicados. Concentrei-me então nos assuntos, distraindo-me com as entrevistas e com as crônicas. Alguns paradoxos pairaram no ar: Salomão Schwartzman falou de cabeças ocas e de vitrines fulgurantes, enquanto Cacá ponderou sobre técnica e talento. Tentei ligar tudo isso e tive bastante tempo para chegar à conclusão de que o tempo não para de correr, mas me faz parar no tempo, numa rua alagada e na mira de milhares de motoqueiros mirando meu espelho retrovisor, para entender que de nada serve o brilho e o requinte se há apenas o vazio, o nada, mesmo que seja construído com a perfeita sintonia de engenho e arte para aquele tempo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Consolo

Ai, que alívio! Acho que todo mundo já sentiu um pouco isto que acabou de acontecer comigo agora! Não é que eu não me esforce, mas os assuntos às vezes são pra lá de tediosos, apesar de serem de extrema importância para o desenvolvimento dos estados, do país, do mundo inteiro globalizado e também para os bolsos de um número enormemente expressivo de pessoas interessadas no lucro da coisa. Estou falando do pré-sal, procurando entender todos os gráficos que no momento insistem em vir a mim e me explicar o que existe nas profundezas da terra, antes do petróleo (ou junto com ele??), considerando o espaço de cima para baixo, já que é pré... Sempre pensei que não poderia deixar de saber tudo tudo tudinho sobre isto, afinal, como vou poder falar deste problema seriíssimo quando ele vier à baila?? O alívio começou ontem, quando na hora do jantar alguém disse que de jeito nenhum precisamos dominar todos os temas e terminou agora, neste exato momento, às doze horas, quando peguei o jornal para ler (e isso porque não consegui fazê-lo logo cedo, quando as notícias estão ainda bem frescas e quando o jornal ainda está com cara sedutora), ao tomar conhecimento do humor bem-vindo do Tutty Vasques, explicando que o público médio do Jornal Nacional não faz a menor ideia do que seja pré-sal. Como é bom estar na média! Ufa!!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Caderno

As palavras estão vigiando, marotas, com aquele sorrisinho rasgado de expectativa e eu faço de conta que não percebo e nem ligo para essa ansiedadezinha que também é minha, brincando com o lápis bem apontado que me olha aqui do lado, enquanto vou registrando tudo isso direto no computador, mas com uma vontade louca de fazer o lápis escrever na folha cinza de textura sedutora daquele caderno italiano que ganhei há algum tempo e que economizo até, achando uma bobagem enorme essa mania minha de não deixar as palavras que estão marotamente vigiando perpetuarem-se com seu sorrisinho rasgado de expectativa nas folhas costuradas do meu caderno italiano de capa dura!