
Ele era alto, esguio, e tinha pele tão alva que dava para ver algumas veias azuis; olhava fixamente para a moça que fatiava o peito de peru que ele solicitara, todavia nem uma lasca de alegria habitava seu sorriso. Nem havia sorriso, mas perplexidade, pois as fatias eram arremessadas na bandejinha de isopor, como se não fossem importantes, como se não tivessem a dignidade de um naco de peru light. Então os cabelos branquíssimos não tiveram alternativa a não ser reclamar: cada uma delas deveria estar sobreposta em relação à outra, numa pilha ordeira, comportada, sem dobras, sem incorreções. A voz era baixa, educada, compungida. A reação da moça foi arrogante: “da próxima vez que querer assim tem que pedir antes!”. Logo me vi sendo amiga dele e percebi que a brancura da pele tingia-se de um rosa solitário, mas não menos altivo. Vi os olhos claros pestanejarem algumas vezes por detrás das lentes transparentes, enquanto outras fatias eram raivosamente cortadas e novamente jogadas com descaso em outro pedaço de isopor, mas agora em duas pilhas paralelas. Mantive com ele uns fiapos de conversa e percebi que sua alma escorria antes da hora, doída e indignada com o desarranjo nada apresentável de sua encomenda. Depois a cena acompanhou-me por um bom tempo e também a minha alma pareceu escorrer fora de lugar, doída e indignada com a grosseria inadmissível da atitude dela. Os olhinhos úmidos daquele senhor da fila de frios parecem ainda caminhar em minha direção e me explicar que pessoas velhas são aquelas comparáveis a bandejas de isopor, descartáveis. Foi aí que descobri: ele estava na fase da vida entendida como velhice, mas certamente não era velho.
(ilustração: http://fatimavenutti.blogspot.com/2008/07/velho-homem-velho-pai-ftima-venutti-o.html)
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