quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Tara





               “Escrever é perder a reputação.” As palavras vão aparecendo no branco com aquela cara canalha, intensificando o prazer do escritor de apalpá-las, de beliscá-las com gula de tarado. Vêm suadas, exigindo listas e projetos que quase ninguém tem. Mas também vêm debochadas, com cheiro de terra molhada, causando enjoo e prostração.

               Esse é o mistério. Sensações conhecidas arranham o papel e o que se pretendia sedutor, como um sussurro no cangote, vai ficando rouco e adiposo, anestesiando o deslumbramento. E as palavras longilíneas criam celulites e sacolejam estrias até minguarem transparentes, até sumirem encharcadas por clichês.

               São perversas as palavras, todavia. Acorrentam o Gigante e passeiam escandalosas em volta dele com trejeitos e fetiches mascarados. Tocam-lhe com os pés nus e fazem-lhe cócegas nos antebraços de pelos eriçados , provocando-lhe arrepios de embriaguez
               E tudo recomeça.

               Escancaram as palavras a intimidade de seus invólucros e de novo o lápis desliza safado. Então o cheiro de terra molhada vira janela embaçada e o clichê vira vento em gestação, vira vontade de chover.



(imagem: http://www.google.com.br)

8 comentários:

  1. E, ainda assim, apesar de... somos fanáticos pela palavra!
    [ ] Célia

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    1. De fato, Célia. Tem tara pra tudo, não é?
      Beijos

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  2. Boa noite, Maria Teresa. Que fantástica maneira de descrever como se escreve!
    As sensações são plurais, as palavras endoidecidas e muitas vezes são lúcidas.
    Estamos em sintonia com esse caso de amor, que em momentos parece mais um desamor, um terreno infértil, mas sempre chega a água para saciar a nossa sede.
    Parabéns.
    Beijos na alma.

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    1. Obrigada, Patrícia. Acho que temos mesmo necessidade dessa doideira para contrabalançar, muitas vezes, o jeito ordeiro e ordenado de empurrar a rotina.
      Seja sempre muito bem-vinda.
      Beijos

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  3. A escrita é uma sedução onde se perde o medo das palavras. Daí à perda da reputação é um pequeno passo.
    Gostei muito deste texto. Uma visão apurada e algo diferente sobre a escrita.
    Um beijo, Maria Teresa.

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    1. Perder o medo, eis a questão, Nilson. Ele engessa a mão e as palavras ficam rindo à toa, com cara de quem está ganhando o jogo!!
      Obrigada, venha sempre.
      Beijo

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  4. Deliciosa lavra metalinguística, Maria Teresa. Você nos pinta o fiel retrato desta senhora que nos instiga, nos frustra e nos tira do sério. Parabéns e um abraço.

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    1. Obrigada, Marcelo. Que ela nos tire o chão mesmo...
      Abração

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