sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Céu

A camisa verde vivo destacava nela aquela sensação de alegria que jorrava no meio da mesa de pratos verde-claros e amarelos; tons suaves contrastando com o verde vivo da camisa que lhe cabia bem, enquanto saboreava uma sobremesa de claras e sorria com um sorriso de praia. Se o prazer, como o riso, não alcança toda sua plenitude, senão quando partilhado, ela dividia conosco a sensação que sentiu, certa vez, num momento de solidão quando pisava a areia, em meio a uma multidão de ondas arredondadas. Olhava para o céu. Fundo. Olhava? Não olhava. E nos contava com aquele grande talento que ela tem de ficar satisfeita e sondava cada uma de nós, para ver se de fato captávamos a grandiosidade daquela revelação: o importante não é olhar o céu, mas fazer parte dele, desfrutar do azul com o pertencimento de quem sabe que a felicidade não vale apenas quando permanece para sempre. Foi um momento de epifania, e as claras da sobremesa dela transformaram-se em nuvens que nos transportaram com leveza e com ternura para dentro de nós mesmas, aeradamente.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Flores

Quase escondida entre os gerânios lilases ao lado das hortênsias azuis, ela. Era impossível não parar ali, diante do portão vazado, para procurá-la no meio das rosas e dos copos de leite, regando e regando e quase sempre arrancando as tiriricas. Uma a uma, se não aquelas batatas que ficavam dentro da terra faziam com que elas brotassem de novo. Todas as manhãs bem cedo, umas três horas ao menos; todas as tardes, junto com o pôr do sol, umas três horas ao menos. Regando e regando. Deixando a terra macia para o colorido preencher todo aquele espaço, para o perfume invadir o ar, para as pessoas passarem por ali e pararem diante do portão vazado.

Viera com cinco anos do Japão direto para os cafezais. Ali crescera, aprendera com a natureza a conhecer a hora de plantar e a hora de colher. Aprendera que gente é que nem planta: escuta, vê e sente tudo com intensidade e por isso precisa que alguém regue e regue, mesmo quando o céu está com cara enfezada. Cuidando da plantação de café aprendera a cuidar dos nove filhos e mais tarde dos netos; só não aprendera a lidar com as palavras, mas tornou-se orgulhosa daqueles brotos seus que com elas não tinham inimizades. Soube regá-los sempre, afofar-lhes o solo onde pisavam, dizer sim e dizer não. Sua existência era adubada e suas palavras, intensas. Aprendeu que o tempo é o segredo da sapiência e tornou-se sábia.

Há uma semana seu coração doeu e explodiu e as flores do jardim emudeceram. Não sentiram mais a maciez de suas mãos calejadas e sofreram de solidão. No entanto, quem passar por aquele portão vazado, hoje, terá certeza de que durante oitenta e tantos anos ela sempre soube que saudade é o amor que fica. É por isso que os gerânios lilases, as hortênsias azuis, as rosas e os copos de leite estão ali, viçosos, desabrochados, repletos de amor neste tempo em que um círculo se fecha coloridamente para que outro se possa abrir, cheio de perfume.

(foto: http://jardim-e-paisagismo.blogspot.com/2009/03/hortensias.html)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Luz

“Ele parece um fósforo!”. E parecia mesmo. O corpo era uma haste flexível que ia fazendo dribles e tirando a bola daqui, tirando dali, levando-a para o campo do adversário com ginga de quem mais brinca que joga, ainda bem, ufa! Foi uma espécie de alívio naqueles cinco minutos finais de jogo cheio de tensão, como se a mudança do placar pudesse evitar as mortes no Iraque e nos morros do Rio. Se a luz é o tempo pensando em si mesmo, como diria Octavio Paz, neste nosso “tempo de homens partidos”, o jogador que parecia um fósforo assemelhou-se à flor drummondiana que nasceu no asfalto e nos deu alento para começarmos a segunda-feira com expectativa de que o ar pode ter aroma de rosas e não de pólvora, no meio da primavera.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Joaninha

Certa vez, o sol espalhou poeira e a pluma perambulou paciente pelo piso cheio de palidez; pousou de um jeito plácido, mas mesmo assim acordou a joaninha vermelha cheia de bolinhas pretas e a joaninha subiu na pluma e pediu pra ela planar com seu peso de carícia, fazendo com que o garotinho se perturbasse e virasse o pescoço, tentando pegar o poema que a joaninha pendurada na pluma escrevia com perfeição. E as palavras pintadas com o perfume suave da pluma iam saltando e fazendo piruetas, sem precipitação alguma, prolongando a provocação e o desejo do menino de puerilmente praticar aquelas pinceladas, pilotando ele próprio a emoção apetitosa de perseguir a arte de poetar. A joaninha achou graça, fez a pluma pausadamente descansar no peitoril da janela e o pequerrucho, enfeitiçado de puro amor por aquelas bolinhas pretas, guardou a fazedora de versos em suas mãos pequeninas, permitindo sem querer que a pluma pensamenteasse por aí, atrás de sua joaninha. Hoje o menino cresceu, mudou de janela e de peitoril, mas continua poeta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Sherazade


Muito me agradou a leitura do livro História d'As mil e uma noites' de Cláudio Giordano, da Editora Unicamp. Nunca poderia supor que aquelas tramas todas que embalaram meus sonhos infantis tivessem tido percursos tão variados e aventureiros. De fato, o autor nos explica quando e onde surgiram os contos orientais, como “Simbá, o marujo”, “Aladim e a lâmpada maravilhosa”, “Ali-Babá e os quarenta ladrões”. É um belíssimo trabalho, reunindo a saga daquelas histórias tão perenes, daquelas fantasias que fazem tão bem, e que, por isso, nunca morrem. Aliás, não faz muito tempo, deliciei-me em companhia de Sherazade, a singela narradora entregue aos caprichos do Califa, conferindo o Vozes do Deserto de Nélida Piñon; agora pude conhecer a versão de Poe, publicada em 1845 e traduzida por Giordano: "O milésimo segundo conto de Sherazade". Só não me conformei com o destino da inventiva e desenvolta personagem no conto de Poe!!

domingo, 18 de outubro de 2009

Gorro





Nascera com aquele cabelo lisinho à Ronnie Von. Repartido do lado direito e com aquela franja castanha caindo na testa e escondendo o pisca-pisca de seus olhos cor de caramelo. Nunca vi ninguém que piscasse tanto, principalmente numa situação de maior ansiedade. Mais alto que os outros meninos que batiam uma bola cheios de gabarito, naquela rua da Barra Funda, tinha ossos pontudos e pernas longas, incompatíveis com sua posição de zaga, mas o que não combinava mesmo com o joguinho disputadíssimo de toda semana era a tal viseira lisa. Adotou então um gorro que lhe prendia os fios rebeldes e daí ao apelido que ele detestava foi um pulo: Berretto, o correspondente ao que ele levava agora na cabeça, na língua de Dante. Pedia que lhe chamassem pelo nome, mas Berretto soava melodioso aos ouvidos daqueles italianos de fala sonora. Depois do gorro, até que sua participação melhorara e quase nunca ficava de fora, se bem que em jogos como os deles só os que eram muito ruins deixavam de entrar em campo. Berretto piscava a cada Berretto que ouvia, mas ficou Berretto. Certa vez, quando recebeu seu primeiro salário, fez um trato com os amigos: “vamos comemorar o enterro do Berretto; a pizza é por minha conta, mas vocês terão que me chamar pelo nome: serei Olavo para sempre”. Todos concordaram e se esbaldaram; era Olavo pra cá, Olavo pra lá e até pediram sorvete para rebatizarem o Olavo. Só na saída é que esqueceram o Olavo, ressurgindo como fênix o Berretto. “Arrivederci, Berretto!” E Olavo-Berretto piscava e piscava. Todos gostavam dele, que adotara uma tiara e até criara músculos com sua mania de corredor, mas continuavam as piscadelas a cada Berretto; nunca se tinha podido livrar delas. Até que entrou na faculdade, ficou careca e a viseira de cabelos lisinhos tornou-se mais amadurecida e comportada. Implorou aos amigos - todos juntos também no meio jurídico - suplicou-lhes que deixassem aquela coisa de Berretto pra lá, afinal, estavam mais velhos e ingressavam num meio cheio de formalidades. Prometeram-lhe e o Olavo até se convencera de que eles eram amigos de verdade. O curso prometia e os professores eram seriíssimos. Certa vez, no entanto, durante uma prova, todos em perfeito silêncio, Olavo começou a piscar mais que o normal: é que pelo microfone, naquela sala gigantesca, ouvira o engravatado professor dizer que a secretaria solicitava o comparecimento de um dos alunos, logo após a avaliação: “Berretto”, ele disse. “Quem é Berretto?”

sábado, 17 de outubro de 2009

Escolhas

Subir e descer escadas, levantar, fazer sempre as mesmas coisas, ouvir sempre os outros falarem que isso e que aquilo, sendo que o isso e o aquilo deles parecem ser sempre muito melhores que o isso e o aquilo que acontece em nosso dia a dia de subir e descer sempre as mesmas escadas e de fazer sempre as mesmas coisas. Pessoas sentem-se bem ao falarem de seus méritos e de suas conquistas, valorizando-os para si e para os outros, pois as palavras ajudam os méritos e as conquistas valerem como um jardim mais verde do que aquele que se avista na casa do vizinho. E as histórias escorrem coloridas e apetitosas, como se faltassem nas nossas aquelas amêndoas em lascas que fizeram toda diferença nas histórias dos outros. Tudo é uma questão de escolhas e teoria é uma coisa, prática é outra. Todos sobem e descem escadas e o que contamos também tem para eles frescor de grama infinitamente mais acolhedora. Nisso aparece este comercial da DDB em parceria com a Volks, mostrando o que aconteceu em Estocolmo, na Suécia, para tentar mudar os hábitos sedentários dos moradores da capital. Acertaram em cheio com a filosofia do Fun Theory da propaganda: assim, sem aquela fixação obsessiva em relação ao que é mais saudavelmente correto, fundamental é saber optar e pretender encontrar a melodia no atalho escolhido, sem fazer um buraco no muro do outro para ver por que o lado de lá é tão mais paradisíaco que o de cá. Pois bem, hoje, com todo esse dilúvio aqui em São Paulo, vou de Mozart; amanhã, se aparecer um solzinho, acho que subirei minhas escadas em companhia da Elis.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Magia




Sabe aquele desafio de leitura que oferece palavras com as letras fora de lugar? Não há quem não queira ler para testar suas próprias aptidões. De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesrddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e a útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol que se pdoe ler sem pobrlmea. Itso atocncee poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo. Pois bem, o professor de hoje é assim, como o leitor do desafio. Encontra tudo meio escondido, pessoas e vontades dissimuladas, e se coloca à frente cheio de coragem para ler uma sucessão interminável de textos que não parecem que estão lá, mas são conjuntos de pessoas e de vontades às vezes de lado, às vezes de costas, iPod no ouvido, às vezes tirando um cochilo. Claro que, como ocorre com o desafio, há alguém olhando no olho, acompanhando o rumo da flecha que sai de um coração para fisgar o outro, afinal, apesar de não haver tiros certeiros o tempo todo, alguns atingem o alvo e a magia da conexão se concretiza: um fio transparente torna indestrutível esse laço que ninguém vê, que tecnologia alguma consegue reproduzir, e que é perene, pois o que se tocou não foi um aspecto isolado, mas o conjunto todo, corpo e alma. A cada acerto, uma comemoração, mas as flechas são muitas e o trabalho é árduo, pois elas brotam incansavelmente; entretanto, os fios insivívies emrabalham-se e fomram uma teia de bem-qeerures permufados. Feiciteiratenme. Aeabci de ctnoar cmoo funoicna a máciga e aroga vou gaardur tduo de nvoo dertno da catrola.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Menina





A menina pegou o lápis e rabiscou um risco fundo de onde brotou a palavra sonho. E o sonho foi passear com ela pela terra de chão batido e ficou com ciúmes do cachorro de orelhas compridas que também foi junto, fazendo brotar do chão a palavra fingimento que a menina ainda não conhecia. O fingimento saiu na frente do sonho e a menina e o cachorro correram atrás deles, pisando no medo de perder os dois, mas passaram por uma fonte de luz que espantou o medo e fez a menina abraçar o sonho que a essa altura já era seu e guardava uma flor colorida para dar a ela e um biscoito em forma de osso para o cachorro que tinha crescido e virado cão de guarda do sonho da menina. Então, quando o fingimento apareceu, com a ajuda do medo, ele não pôde nem chegar perto da menina vestida com o sonho perfumado pela flor colorida que também espantou o medo. É por isso que as meninas sempre têm um sonho em forma de arco-íris e o fingimento não faz parte da história delas, pelo menos enquanto forem meninas acompanhadas por cachorros de orelhas compridas que comem biscoitos divertidos com gosto de lápis de cor.

sábado, 10 de outubro de 2009

Menino




Não tinha nada, mas tinha um gato. Um gato branco, diferente daqueles que se veem por aí, esquivos e soberbos. Não era de raça, mas comia aquela raçãozinha própria para gatos que vão ser amigos da gente, assim lhe tinha dito a mãe, preocupada com o desmedido interesse do menino em fazer o gato experimentar de tudo um pouco. Mas o gato era avesso a beijos e abraços, apesar de ser um gato mais simpático; ficava constrangido com a euforia do menino que lhe enchia de carinho, que o carregava no colo quase sem aguentar o peso de seu gato de olhos verdes. Tão verdes como os olhos do menino. O menino cresceu e o gato branco que não gostava de afagos ficou mais branco ainda, pois apareceram-lhe uns fios alvos no bigode que já se acostumara com os carinhos apertados do menino. Um dia, os olhos do gato não mais brilharam e o verde dos olhos do menino guardou aqueles tempos de sua meninice para sempre, tempos verdes, eternos, como deve ser a alma de todos os meninos que um dia tiveram um gato de olhos verdes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Caixas



A relíquia em forma de cruz era do século XVIII e ficava no altar direito de quem entra na igreja de São Francisco de Assis, na cidade mineira de Mariana. O artista que a confeccionara certamente nela depositara toda sua fé e todo seu talento e depois, mais tarde, a imagem coroada de São Luís Rei da França fora a escolhida para ficar ali, bem abaixo do artefato bento. Isso até que um ladrão aparecesse por lá, nos idos de 1950, cerrasse a cruz e a levasse para casa, possivelmente dentro do casaco. Foi o que li no jornal de ontem, tirando o aspecto do casaco. Fiquei então imaginando o que teria feito o gatuno com o produto de seu roubo. Teria tentado vendê-la? Estaria a cruz dependurada na sala, em lugar de destaque? Estaria escondida atrás da parede falsa do guarda-roupa? Ou tudo isso teria acontecido, mas em momentos diferentes da vida? Provavelmente os 20 centímetros de madeira e de arrependimento cresceram enormemente um pouco por ano e não couberam mais em nenhum lugar da casa, dessacralizando o desejo de ter a divindade mais ao alcance da mão. Será? O fato é que, novamente de acordo com o jornal, a peça sagrada retornou a seu posto de origem pelo correio agora, 60 anos depois, dentro de uma caixa que também continha um pedido anônimo de desculpas. A Igreja concedeu-lhe perdão, seja a pessoa quem for, pois “seu gesto de arrependimento demonstrou maturidade”. Mais uma vez fiquei imaginando, então, que essa história poderia causar tanta estupefação, que muitas outras caixas misteriosas e de tamanhos diversos poderiam lotar as instalações de todos os correios, com bilhetes anônimos ou não, ou até sem bilhete, com objetos a serem devolvidos dos mais diferentes naipes, como outras cruzes, celulares, provas do Enem, pés de laranja, além de coisas de somenos importância como inocência, respeito, ternura, compaixão. Afinal, amadurecer faz parte da evolução de todo ser humano.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Anne

(foto: http://folhasdepapel.files.wordpress.com/2008/12/anne_frank.jpg)

Esta história acompanhou-me nos meus tempos de menina; li e reli o Diário de Anne Frank, imaginando como era viver sem ruídos, observar o mundo de forma emparedada, conhecer a solidariedade, descobrir o amor. Com ela horrorizei-me com o Holocausto e encantei-me com as palavras que traduzem dor e emoção, medo e ternura, morte e vida. Palavras que caracterizam fantasias, mas que também falam de grandes tragédias e de pequenos sabores do cotidiano. Mais tarde, fui a Amsterdã e visitei emocionada o local do esconderijo onde ela ficara com sua família judia, durante a Segunda Guerra. Subi a escadinha que dava para o alçapão e mais uma vez imaginei a menina que não podia ter nada e que tinha o mundo na ponta do lápis. Então, ontem à noite, conferindo o Estadão pela internet, achei o vídeo deste link:



Anne Frank está à janela, contemplando um casal de noivos, o movimento dos carros, das bicicletas e das pessoas nas ruas. Ela olha para baixo e para cima, olha para os lados, enquanto o tempo se fecha em círculos para dentro de suas retinas de menina sensível. Essas lembranças tinham ficado perdidas na memória, mas agora voltaram e se recusam a ir embora.


domingo, 4 de outubro de 2009

Anestesia


Acontecia ultimamente às quartas-feiras, logo no primeiro horário. Ela chegava um pouco antes, para já se ir acostumando com o ambiente. Lia a primeira folha do Estadão, tentando concentrar-se e esquecer o que para ela estava sendo preparado no andar de cima. Então a chamavam e ela subia aquela escada de degraus tão bem encerados, que cada um deles refletia um pouco de sua ansiedade e de sua expectativa; instalavam-na na cadeira de conforto reclinável e preparavam-na com aqueles trajes brancos cuidadosamente esterilizados. Uma luz também branca e fria iluminava a sala de 21 graus rotineiros, onde um monitor de TV transmitia o Jornal das 8. Não queria nem ouvir falar em tratamento sem o Prilonest; com afinco, procurara saber tudo sobre aquela anestesia e já se tornara experiente para reconhecer seu odor característico.

O médico sempre chegava sorridente, explicando os efeitos da prilocaína e da felipressina: “enquanto a primeira adormece o local, a outra ajuda a manter a dormência”, repetia com aquele jeito simpático e com uma fileira de dentes brancos como pérolas por trás da máscara alvíssima. Não via a hora de receber aquela agulhada fininha para ter a sensação de que nem sua gengiva ficaria sensível àquela raspagem assustadora. Com extrema delicadeza, ele ia injetando aquele líquido e tudo ia ficando entorpecido: língua, lábio, bochecha. Nunca contara a ninguém sobre o que ocorria então. Como seus batimentos cardíacos normalmente aceleravam - e isso era já previsto na bula do medicamento - a luz de néon do teto recebia cada vez mais calor e piscava freneticamente, até finalmente explodir, exatamente como acontecia com seu coração; parecia-lhe que havia ali perfeita sintonia, que apenas ela reparava. Nunca mencionara o fato ao dentista, pois ele necessariamente o associaria às ilusões decorrentes de seus experimentos ficcionais; no entanto, como lhe aprazia conferir a desintegração das partículas daquele gás invisível, provocada por sua intensa taquicardia! É absolutamente comprovado que o néon faz parte do material que se condensou para dar origem à Terra, mas também é necessário seu retorno à atmosfera para formar as nebulosas. Aproveitava então o melhor momento: carregada pelas nuvens, comprazia-se por mais uma vez poder flutuar e tocar o cheiro que as estrelas exalavam, pisar na água da Lua recentemente descoberta e bisbilhotar os mistérios siderais. Ali encontrava os personagens de seus romances e conversava com eles, para ter a verdadeira dimensão de suas necessidades e de seus sonhos. Voltava confiante seguindo seu olfato apuradíssimo e ainda ouvia o som do terrível do motorzinho com aquele piiiiiiii ensurdecedor.

Entretanto, tal como acontecera com o celular, que agora era recarregado corriqueiramente com o calor do corpo, o trânsito para o espaço logo logo estaria caótico, quando se descobrisse que o coração batendo forte associado àquele gás nobre e incolor é ticket free para viagens inesquecíveis. O melhor mesmo era manter aquilo tudo em segredo, afinal, congestionamentos, já bastavam os das ruas da cidade, enfartadas de tubos de anúncios luminosos preenchidos de néon.

(foto: http://soucontinenteperfeito.blogspot.com/2009/02/o-vento-e-seu-mensageiro.html)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Miniaturas


Aqueles bigodes brancos dos cinco menininhos indianos proporcionaram-me um sentido de existência adubada e perfumada. Folheei o jornal com um olhar mais límpido, sem me deter nos estragos que o adiamento do Enem provocara ou na tristeza dos habitantes da Indonésia, após o terremoto violento. Por que sempre o que arrasa funciona como ímã, que preenche tantos espaços e favorece um gosto de ferrugem que fere, deixando fissuras ácidas sem chance de consolo? Não, decidi que minha sexta-feira ensolarada seria uma daquelas “manhãs sem vestígio”, utilizando a caracterização de Cony, em sua terna crônica sobre momentos de paisagem e de solidão. Virei todas as folhas sem pressa, mas retornei àquela foto das miniaturas de Gandhi. Eram os meninos quase do mesmo tamanho e estavam seriamente perfilados com seus bastões, como se compreendessem a grandiosidade da homenagem que prestavam: no dia do nascimento do líder pacifista, a comemoração universal da Não Violência. Usavam óculos todos eles e turbantes brancos; tinham expressão curiosamente séria e olhar ingênuo profundo, como se soubessem já que o mundo é um lugar vasto e imprevisível, às vezes assustador; no entanto, eles estavam ali, combatendo a discórdia com a serenidade de seus prováveis cinco anos e desafiando o mundo adulto de peito nu. Foi assim que meu dia de primavera amanheceu em paz.

(foto:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/corrida/cr0210200905.htm)