quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Des-viver


Toda tensa ela estava toda tensa. De olhos verdes perplexos, só via o de frente me deixando ali com cara de despejo como caricatura de homem de quarenta mais que perfeito derrotado. Desperdiçado. Dançava com deleite com balanço estrepitante, atraindo a atenção dos do lado e dos de trás. Boca vermelha semiaberta nariz em riste apontando para todos que a cercavam no círculo onde eu estava transparente. Descosido de mim.
- Eu te amo eu lhe dizia no desarranjo de meu desconcerto e as palavras descoloridas dançavam junto, desejosas de sair de mim para se embaralharem no requebrado esverdeado que é meu era meu sempre fora apenas meu.
- Eu te odeio eu lhe gritava no meio da dança e o verde me olhava com aquela boca vermelha semiaberta nariz em riste gargalhando da minha dispersão.
E a dança sem dó continuava sem decência como névoa como neblina cobrindo flores amarelas brancas e multicoloridas de um cinza tão triste que as lágrimas pulavam do de dentro e inundavam o de fora sem disfarces sem doçuras. De repente eu não via mais o ritmo que me dizimava pouco a pouco nem provava mais a música doentia que me doía.
- Eu te odeio eu urrava silencioso debruçado no desenho do decote que subia e que descia diante dos últimos fiapos do meu desamparo.

- Eu te amo eu berrava soletrado e chorava e me tingia de lama e de desonra enroscado naquela dança demoníaca que ia e vinha e me tragava e me doía me doía.

10 comentários:

  1. Só poderia ser ao compasso de um bolero de Ravel... Que matizes, que rítmo, que nuances de gestos, cores e explosões...
    Você está mesmo inspirada. Parabéns! RUTH

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  2. seus textos andam muito vulcânicos, apaixonados, e isso é bom!... Muito bom! Quase transpirei lendo este...
    Um beijo!

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  3. Maria Teresa,
    Que «nuances» ricas, têm estas suas prosas poéticas, que esboçam histórias. Aqui podiam tirar-se muitas ilações. Ninguém é de ninguém, eu quero fazer o que me apetece, eu sou livre...fiquemos por aqui para não dizer mais disparates!
    A Rute tem razão, se fosse o «Bolero de Ravel» obviamente que era difícil parar de dançar, porque momento a momento um instrumento entra intensificando a música!...
    Beijinhos,
    Manú

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  4. Ru:
    Obrigada. Talvez a música fosse essa mesmo. Obrigada pelo complemento.
    Beijos


    Nivaldete:
    De fato, às vezes a vida parece mesmo arrebatar!
    Beijo grande pra você


    Manu:
    Nada melhor que essa liberdade a que você se referiu para viver de forma intensa. E como é bom viver assim!
    Beijo carinhoso

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  5. Nossa, Maria Teresa! Que texto intenso! Gostei muito! Beijos!

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  6. Há "danças" que doem, doem...
    - "como caricatura de homem de quarenta mais que perfeito derrotado. Desperdiçado." - não é?
    Beijinho

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  7. Naty e Carlos:
    Obrigada pela visita. Sejam sempre bem-vindos!
    Abraços


    Cassia:
    Fico sempre feliz quando você aparece. Origada.
    Bjos


    Quicas:
    Possivelmente essas danças que doem são responsáveis por outras em que acontecem grandes alegrias. Assim é a vida!
    Abraços

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  8. Deixei-me levar por esta inspirada dança. Gostei também da subversão - proposital - à pontuação. Parabéns, Maria Teresa.

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  9. Um texto excelente, Maria Teresa.
    Beijo grande.

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  10. Marcelo:
    Pois é, as vírgulas e pontos dificultavam a pulsação. Obrigada pelo comentário generoso.
    Abraços


    Dade:
    Carinhosa como sempre sua passagem por aqui.
    Beijos

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