segunda-feira, 16 de abril de 2012


                Só meu avô Pedro me entende, acho que porque também me chamo Pedro. Ele não ouve muito bem agora e só vive de cama porque não aguenta mais ficar em pé, mas para que eu não precise falar aos berros para podermos conversar, ele escreve na minha lousinha, aquela branca que é fácil de apagar.

                Foi assim que pensamos no papagaio Zé, que parece bobo porque fica sempre repetindo a mesma coisa, mas ele é esperto que só vendo.


                Fiquei a tarde toda procurando um pedaço de papel mais duro onde eu poderia colocar o aviso com letras de forma bem grandonas. Adoro escrever com letra de forma, apesar de a professora insistir numa letra cursiva redonda igual a de menina, que chato! Pois bem, em vez de papel duro, achei um pedaço de madeira já bem cortada, que sobrou da reforma do chão lá de casa e levei para o vovô ver. Ele aprovou e até me ajudou um pouquinho, porque eu escrevi PAPAGAIO com um PA apenas e daquele jeito não iria dar certo.


                Depois achei um prego grande e o vovô me ensinou a segurar para eu não martelar a mão e lá fui eu. Preguei direitinho na porta nova, que mamãe tinha acabado de mandar pintar de branco bem branco. E parei de ter medo.


                Quando o papai chegou, foi voando na cozinha falar com a mamãe e os dois entraram com cara furiosa no meu quarto, sem nem mesmo bater na porta, como havíamos combinado. Eu estava calmamente brincando de Lego com o Picolé e levei um baita susto, um susto mais que verdadeiro.


                Expliquei que isso espantaria os ladrões que estavam entrando nas casas ali por perto e eles me tiraram o Lego e me deixaram de castigo; eu não poderia nem mesmo conversar com o vovô. Então não tive vontade de expor minha tática fabulosa, não tive não; além do vovô, só o Picolé está sabendo de tudo, ele que também ficou proibido de entrar no meu quarto “até segunda ordem”, como meu pai gosta de dizer, apesar de eu não entender direito o que significa isso (estou anotando algumas coisas na lousa para perguntar pro vovô).                

               
                Agora só espero que o ladrão venha hoje, pois o papai e a mamãe foram trabalhar e ainda não tiraram o aviso da porta: o ladrão vai chegar e vai ler o CUIDADO COM O PAPAGAIO escrito com uma letra de forma mais que caprichada, vai entrar sem ligar para o aviso, vai roubar o computador, os relógios da coleção do papai, vai se dirigir à cozinha para pegar o dinheiro que a mamãe deixou para a Zilmara gastar na feira e vai dar de cara com o Zé. Então o Zé vai gritar PEGA, PICOLÉ e o Picolé vai aparecer com uma cara mais que horrorosa toda suja de baba e o ladrão vai sair correndo deixando tudo pelo caminho porque ele não pensa em mais nada, a não ser em pegar o que não é dele na casa dos outros. Gente grande não entende nada mesmo. A não ser meu vovô Pedro, claro. E o Picolé que não é gente, mas é sabido que só vendo.           


(Imagem: http://2.bp.blogspot.com/_S3vX2Osw0KU/TP9-Tg47QnI/AAAAAAAAAB8/CIulz17G0e8/s1600/papagaio_021.jpg)

14 comentários:

  1. Uma história familiar com muitas verdades: a criança que entende o velho mais que ninguém, e os pais que pensam na estética e muitas vezes esquecem-se da ética, do exemplo...
    Bj. Célia.

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  2. Célia, é sempre um prazer tê-la por aqui. É verdade, parece que os extremos da vida se encaixam perfeitamente, como se fizessem parte de uma melodia pra lá de harmoniosa.
    Beijos

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  3. Pois é, Pedro!... Gente grande é muito injusta, mesmo!...

    Lindo, Maria Tereza!...
    Beijos e uma linda tarde para você

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  4. Dulce:
    Obrigada. Gente pequena é que sabe mesmo das coisas, né?
    Beijos

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  5. Por um avô assim a gente faz tudo pra trocar ideias e ter a resposta de todas as dúvidas. Lindo texto, Maria Teresa. Lembrei do meu avô.

    Beijo pra você.

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  6. Dade:
    É uma delícia pensar num avozinho assim...
    Outro beijo pra você.

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  7. Sensacional este texto em perspectiva mirim. Você tem facilidade em narrar sob outras peles, e nem precisa dizer que o resultado é invariavelmente ótimo. Parabéns, Maria Teresa.

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  8. Ah, Marcelo, sempre gentilíssimo... Obrigada.
    Abração

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  9. Os adultos teriam que manter a sua criança dentro de si para compreender a lógica da criança!Vovô Pedro já estava na segunda infância, quando depois de saber muito se considera o quanto realativo isso é!
    Boa imaginação querida Teresa!
    Beijinhosssss

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  10. Todas as crianças têm um ZÉ na imaginação. Nós, adultos, é que não as compreendemos. Nosso dever é deixar que dêm largas e se realizem, criando sua realidade: a realidade do sonho, da projeção e do saber.
    Muito bom ´- Bj RUTH

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  11. Maria Teresa, que delícia, sua história! Até me senti pequenino... por conseguir entender, oh se consegui! Ou então serei assim que nem Picolé, "sabido que só vendo"!... Adulto, mesmo, só quando for "vovô" - nos momentos em que não consigo livrar-me dos ataques de "adultíce", costumo dizer que tenho esperança de que esse dia irá chegar... afinal, tenho quatro filhos já bem crescidos, não é?!
    Obrigado por estes momentos de encanto!
    Abraços
    jc

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  12. Manu:
    E como é difícil manter essa criança bem guardada, não é?
    Beijo carinhoso


    Ru:
    Obrigada pela mensagem sempre tão querida.
    Beijos


    Caro Quicas:
    É um prazer grande encontrá-lo aqui. Certamente você vivenciará esses momentos cheios de ternura muito em breve, claro que sim!
    Grande abraço

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  13. Uma história muito interessante. NUnca tive um avÔ assim, mas a avó Piedade que se foi quando eu tinha apenas 6 anos, foi tudo para mim. Foi ela quem me ensinou coisas que recordo com grande precisão e foi ela quem me explicou pouco antes de morrer que não era o menino Jesus que trazia os presentes quando eu que queria saber porque é que o menino Jesus trazia presentes às crianças a quem nada faltava, (a filha do gerente da Seca e o neto do Capitão) e a nós sempre deixava dois ou três figos secos, e dois ou três rebuçados. Fiquei esperando a chegada do Menino Jesus, (naquele tempo nnunca tinha ouvido falar no Pai Natal) e vi minha mãe distribuindo os rebuçados nos tamanquitos de madeira que deixaramos ao pé do fogão. Fiquei revoltada, pensei que o Menino, fazia distinção e só gostava dos meninos ricos. A minha avó com toda a paciência explicou-me então que se dizia que o Menino vinha naquela noite porque fazia anos que ele nascera, mas que na verdade quem dava as prendas eram os pais, e que os meus não tinham dinheiro para comprar mais nada. Lembro dela como se a tivesse visto ontem.
    Um abraço e uma boa semana

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  14. Elvira: fico feliz de que o ZÉ tenha lhe trazido lembranças tão ternas...
    Beijo carinhoso

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