segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Antítese


Era uma espécie de descômodo desses cheios de vácuo e de amargura, naquele mundo vertical, povoado de antenas e de janelas. Falavam sem parar e sem prestar atenção nenhuma um ao outro. Eram fragmentos de inaptidões que se somavam, desprovidos de fragrância, descoloridos. Naqueles instantes, a vida parecia suspensa, como se não houvesse por quê. O ar tinha aroma distante das rosas, um aroma limpo, mas a prosa adquiria semblante cinzento, com círculos apertados, fazendo com que o amor murchasse pouco a pouco. Ela falava frases muito breves, entrecortadas, com vários pontos de exclamação, enquanto o discurso dele era labiríntico, perdendo-se o essencial nas ideias secundárias que se iam subordinando e se subordinando. Enquanto isso, acima dos edifícios, um sol pequeno como uma gema era engolido pelo céu azul, boquiaberto e pensativo, pasmo com o quadriculado daquela incompletude.

13 comentários:

  1. Ah, minha amiga, um quadro muito comum na cidade grande, gente que se perde de si mesma, em desencanto e tédio... Uma imensa solidão a englobar duas almas que insistem em ficar juntas, talvez(?), quando já não têm nada que as una...
    Um texto incrível, como sempre.
    Beijos e uma boa tarde.

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  2. OLá Maria Teresa,
    A opressão do betão, onde as pessoas vão perdendo afectos e construindo entre elas a sua própria parede de pedra!...
    Um texto muito bem trabalhado como sempre.
    Beijinhos,
    Manuela

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  3. Parece que o 'mal' às vezes faz bem... Nesse quadro bem pintado por você, se um sai, o outro perderá a única ilusão de companhia. Falará mais sozinho. Certamente gritará: não vá!

    Talvez existam muitas maneiras de se ter e ser companhia... A mais importante é ser companhia de si mesmo, mas isso poucos sabem.
    Importa que você é uma grande observadora da vida...
    Abraços!

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  4. Dulce:
    É verdade, como esses desajustes são cada vez mais frequentes nesta nossa cidade povoada de antenas! A comunicação oferece cada vez mais subsídios de progresso e as pessoas sentem-se cada vez mais sozinhas!
    Beijos


    Manuela:
    E o pior que as paredes são surdas e ásperas! A ternura míngua e escorre pelos vão das portas trancadas.
    Beijos


    Nivaldete:
    Sempre considerei que é imprescindível que as pessoas se bastem para que possam ser inteiras. Só assim serão companhias verdadeiras, daquelas que de fato fazem falta. Entretanto, neste tempo de carências cada vez maiores, desaprendeu-se a técnica de con-viver, de refletir e de provar doses grandes de autoestima para depois ver o outro, amar o outro. Concordo com você: bom quando resta pelo menos a ilusão do outro.
    Beijos

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  5. Ótimo e sensível texto, Maria Teresa. Obrigado pelo comment lá no meu sítio. Abraços e boa semana.

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  6. Marcelo:
    Obrigada pela visita. É sempre um prazer encontrá-lo por aqui.
    Abraços

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  7. No entanto, dentro daquelas paredes frias há vida.Se nos aprofundarmos e ficarmos atentos ouviremos rumores, sentiremos saudade,seremos parte desse mundo incompreendido e misterioso. Nada há de inexplicável para o homem. Parabéns! É para refletir... BJ RU

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  8. Ligia Menezes Arruda Sokolowski5 de agosto de 2010 15:47

    Olá Maria Teresa
    Sou Ligia,irmã da Marisa que você conheceu na África do Sul.
    Meu cunhado Nei me encaminhou a sua mensagem e eu tomo a liberdade de " invadir" seu blog para te dizer o quanto foi importante para ela te conhecer e trocar cartas contigo,ainda que por pouco tempo.
    Obrigada
    Ligia

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  9. Ru:
    A vida clama e exige nossa participação, sem dúvida! As paredes podem ser frias, mas aquecem-se com nossas sensações, mesmo as mais inexpressivas.
    Beijo carinhoso

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  10. Ligia:
    Prazer enorme encontrá-la por aqui. De fato, foi um tempo de muita alegria aquele quando trocávamos longas cartas e falávamos de tudo um pouco. Aliás, neste blog, escrevi sobre a Marisa no dia 5 de setembro do ano passado; você pode ver. Foi minha homenagem à amiga tão querida, que está para sempre guardada naquele canto do coração, que reservamos às pessoas muito especiais.
    Beijo carinhoso,
    Maria Teresa

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  11. Texto poético e muito bem "enquadrado" na figura que o ilustra. Adorei! Beijos!

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  12. Oi, Daniel:
    Obrigada! Adoro ver você por aqui!!
    Beijos

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