segunda-feira, 3 de maio de 2010

Solidão


Em seu artigo de sábado, nO Estado de São Paulo (01/05/10 - A2), Miguel Reale Júnior analisa a situação de total falta de respeito de quem ficou dedilhando o teclado de seu blackberry, durante uma apresentação de música clássica na Sala São Paulo. E comenta: “a consequência está na perda da individualidade diante do predomínio do coletivo graças à massificação da informação contínua, que formata sem juízos críticos uma mentalidade única, com distinções apenas tênues. [...] Curiosamente surge um individualismo sem individualidade: as pessoas restam sem identidade.” Entrevejo, então, pessoas sem cara, sem cor, sem corpo, sombras cinzentas sentadas lado a lado, enquanto a música perpassa pelo ar e se esvai, sem que possa ser captada, sem que seja entendida como uma linguagem capaz de tocar fundo e de suscitar pensamentos puros, desvestidos das manobras cotidianas da mídia dominadora. O importante é o domínio dos entendimentos rasos, diversificados, massificantes, mas com absoluta destreza no manejo de botões. O importante é estar no de dentro, conectado com o de fora; estar no alarido e na turbulência dos sinais que tudo informam, mas nada acrescentam ao espírito carente daquela imaginação silenciosa, que preenche e delineia identidades. O que vale é o denominador comum que estimula com esmero os aspectos sensoriais e ceifa pouco a pouco o espírito crítico e a imaginação criadora. Na Sala São Paulo, “templo da música”, ao som de Haydn, trazido a público por um virtuoso pianista húngaro, o reflexo destas solidões a que nos convertemos nesta era de “coletivação dos espíritos”. Interligadas aos links do mundo globalizado, pessoas solitárias sem cara, sem cor, sem corpo, sombras cinzentas sentadas lado a lado, estavam convencidas de que valera a pena pagar caro para ouvirem música clássica.

15 comentários:

  1. Oi, Maria Teresa!

    Quanta profundidade para falar de tamanha insensibilidade! Ainda bem que algumas pessoas ainda conseguem escapar deste universo sem cor e sem alma.

    Beijos e boa semana!

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  2. Texto perfeito, Maria Tereza!
    Abraço.

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  3. Oi Maria,
    Faz um tempinho que não me dou o ar do comentário, mas dessa vez resolvi dar meu pitaco...
    Entendo o tema sobre o qual você discorreu, entretanto, creio que esse tema “individualidade sem identidade” é algo mais que batido e tanto assim é que já saiu dos livros de teoria para ganhar o gosto popularesco. O que quero dizer com isso? Que no mínimo já se formou um senso comum sobre o tema, não desmerecendo quem discorreu sobre ele. Porém quando a COISA chega nesse pé é hora de repensar, penso eu. Porque se não qualquer coisa que vemos já gritamos que é culpa da falta de identidade; como foi a moda há algum tempo gritar que tudo o que acontecia era culpa dos Estados Unidos.
    Não sei, o que me parece é que entre todos, o dito que dedilhava, era o único diferente, afirmando bem mais que todos os modos do seu tempo, fazendo sua “própria música”. Eu particularmente gosto muito de Handy, mas ele e sua música, nesse contexto, me parecem muito mais vítimas “Entrevejo, então, pessoas sem cara, sem cor, sem corpo, sombras cinzentas sentadas lado a lado, enquanto a música perpassa pelo ar e se esvai, sem que possa ser captada, sem que seja entendida como uma linguagem capaz de tocar fundo e de suscitar pensamentos puros, desvestidos das manobras cotidianas da mídia dominadora.”
    Penso que a internet pode se tornar um problema sério, sempre fui a primeira a querer colocar suas relações no chão. Mas tem coisas que, infelizmente, estão acima das nossas forças.
    Neste caso, porém, o que me parece muito claro é que é chique estar sábado à noite na Sala São Paulo, mesmo quando queríamos mesmo era ficar em casa, navegando na internet.
    Um beijo,
    Amanda.

    P.S. Percebo que seus textos mudaram de cor. O que terá havido?!

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  4. Limara:
    Dá até medo de olhar no espelho e não nos vermos mais, não é?
    Bjos

    Ivani:
    Muito obrigada. Fiquei feliz com sua visita!
    Bjos

    Amanda:
    O problema é que o dito cujo não era o único a brincar de blackberry, isso é que é. Pelo salão, viam-se outros focos de luz. Segundo o texto, no intervalo, houve necessidade de a direção "pedir para não serem acionados aparelhos celulares, mesmo no modo silencioso."

    PS: não sei por que o texto aparece com outra cor para você. Tenho seguido sempre a mesma rotina de postagem.
    Bjos

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  5. De acordo "ipses literis" com o seu tema.Afinal,quando reunidos para ouvir em grande compositor pelas mãos de insigne executante, só resta que nos quedemos mudos, mas ouvintes atentos e interessados.O silêncio torna-se elemento presente, vivo e absolutamente expressivo.
    Quando iremos à Sala S-ao Paulo? BJ RUTH

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  6. Texto muito bem escolhido, Maria Teresa!
    "...surge um individualismo sem individualidade: as pessoas restam sem identidade..." - para reflectir demoradamente, não é?
    Beijinho

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  7. São consciências pugladas todo o tempo. Dependência. Outra droga.
    Lamentável...
    Um abraço!

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  8. Ru:
    Nada como o silêncio para contemplar o belo!
    Bjos


    Quicas:
    A reflexão tem sabor de eternidade, não é?
    Seja sempre bem-vindo por aqui!
    Abraços


    Nivaldete:
    O vício se alastra em proporções virtuais. Pobres de nós!
    Beijo

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  9. Gostaria de me deter neste achado do seu (ótimo) texto:"o importante é estar no de dentro, conectado com o de fora", o que resulta em não fruir absolutamente nem um nem outro, não é mesmo? Mas isso é bem típico dessa nossa era. Não lhe parece que esse fascínio e fixação com os aparelhos de última geração tem muito de infantilidade?

    Ah, e a respeito do teor da postagem, recomendo o artigo Amor sem pudor, do escritor norte-americano Jonathan Franzen (que saiu na Folha de S. Paulo, em 16/11/08, no Mais!), no qual o autor lamenta esse desrespeito ao espaço público por meio de traquitanas eletrônicas.

    Um abraço.

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  10. Olá Maria Teresa,
    Sou frequentadora de concertos. Gosto bastante de música clássica e por cá já se estabeleceu uma postura, para assistir aos mesmos. Lentamente acabaram as palmas entre movimentos e já não há toques de telemóvel ou de qualquer aparelho com sinais sonoros. Também quando o concerto começa, as portas são fechadas e ninguém mais entra. Uma sala de concertos é algo similar a uma catedral, é necessário saber ouvir a música e deixarmos-nos levar por ela. Relativamente ao chique, há pessoas «habitués» os verdadeiros mélomanos e depois aos outros!...
    Beijos,
    Manuela

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  11. Halem:
    Estou inteiramente de acordo com você. Aliás, daria para dissertar longamente sobre essa necessidade de brincar, que está tornando-se cada vez mais viciante. Vou procurar o texto de Franzen e agradeço-lhe muito a complementação.
    Abraços.


    Manuela:
    Está aí: sala de concerto como sinônimo de lugar sagrado, teríamos que aprender isso por aqui. No entanto, parece grandemente árduo semear no oco e no vento.
    Beijos,
    MTeresa

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  12. Olá, Maria Teresa! Será que chegará o tempo em que o belo passará a ser só o que transporta para o mundo virtual? Será que as pessoas não mais se deleitarão com boa música, boas conversas, bons livros, em nome do manter-se "plugado"? Espero que não... Beijos, Cassia.

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  13. Cassia:
    Faço coro com você! Imagine deixar de folhear a página cheia de textura e de palavras doidas para sentirem-se doídas de atenção? Olhar no olho, sentir o perfume da lágrima e do riso? Também espero que não...
    Beijos

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  14. Acho triste uma pessoa ir a um concerto de música clássica sem antes deixar a tecnologia de bolso em casa, ou desligada.
    Tem hora e lugar pra tudo. Falta bom senso, educação, ouvidos apurados, ou tudo junto?
    Excelente texto Maria Teresa.
    Bjs

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  15. Oi, Vera:
    Que bom você estar de volta! Muito obrigada pela mensagem amiga.
    Beijos

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