sábado, 26 de dezembro de 2009

Férias


Férias coletivas.
Meus botões ficarão um tempo retirados para colocar a casa em dia, para refletir, para abrir janelas e portas, para renovar-se.

FELIZ 2010!

Até breve.
Maria Teresa

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Esperança




Queridos leitores:

FELIZ NATAL!

Que em 2010, até nossas escolhas mais banais e fortuitas nos conduzam a um mundo mais harmonioso, bordado com os propósitos altruístas de cada um de nós.

Grande abraço,
Maria Teresa

(Foto:http://www.asmaismais.com.br/index.php/vale_lembrar/dicas-para-comprar-o-presente-de-natal-ideal)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Natal

Cautelosos e bastante envergonhados. No início, não foi fácil deixá-los à vontade. As mãos não obedeciam, o pensamento não cooperava, tudo parecia fora de lugar. De lugar e de tempo. Cinquenta anos ou mais não é momento de começos, de trajetórias cheias de letras inexpressivas, de símbolos sem significado, de signos ocos.

Lápis e cadernos cheios de linhas eram ameaçadores e tudo parecia sem nexo, sem elo, sem compaixão. Cada um deles percorreu melhor um atalho que o outro: ela preferia desenhar as letras e o fazia com capricho. Encorpadamente. Ele dava-se melhor com a leitura e saboreava os primeiros passos da identificação dos nomes das coisas. Sonoramente. Um completava o que o outro não sabia bem, mas ela teria que juntar os pedaços das palavras, palavras gordas, curvilíneas; aliás, adorava os contornos, o desenho espirituoso daquele mistério de traçados. Ele teria que domesticar os dedos acostumados a enxadas e a plantações, ao trato cotidiano de bois e de bezerros; adorava ouvir o som das palavras que estavam ali, prontas para serem decodificadas.

Foi uma luta de ano inteiro. Luta briosa de enfrentamentos e de pasmos. A cada página da cartilha, um novo sentido para a vida retirada do fundo do baú, já sem a poeira do desconhecimento.

Neste tempo de Natal, aqueles signos ocos estão preenchidos de luz e de melodias afinadas com uma era de nascimentos. Por isso, a ceia deste ano terá um sabor muito mais aprazível: ele lerá para ela o nome do panetone que comprarão no supermercado e ela fará o pernil seguindo uma receita copiada com sua letra cheia de redondezas. Os filhos virão com os netos e a casa estará enfeitada com os doces saberes de quem teve coragem para principiar, mesmo que aos cinquenta e tantos anos. De A a Z, plenamente.


(Foto: mhtml:mid://00000167/!http://dezmaos.files.wordpress.com/2008/11/mao-escrevendo.jpg)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Ternura


Não mais que vinte e cinco anos as três deveriam ter. Eram parecidas, apesar de os estilos serem diferentes: uma delas tinha um cabelo bem preto e bem curto, meio espetado; usava shorts e uma bota preta. A outra era loira, de rabo de cavalo e vestido estampado de florezinhas miúdas. A terceira tinha um cabelo encaracolado, semi preso com várias fivelinhas, e usava um jeans cotidiano. O trânsito tinha parado, eu não saía do lugar nem aguentava mais ouvir sobre as consequências das inundações; foi quando elas surgiram: as duas primeiras saíram da Fnac morrendo de rir, sem nenhuma sacola de compras, e pararam ao meu lado, esperando para atravessar; nisso viram a terceira amiga do outro lado da rua e esperaram. Vários cachos passaram por mim correndo e, quando alcançaram a bota e as florezinhas, abraçaram-nas com uma alegria tão grande, que eu fiquei torcendo para nada se movimentar. Foi um abraço triplo, desinteressado, espontâneo. Olhando para elas, fiquei pensando que, neste mundo de consumismo cheio de correria, apenas a beleza merece confiança; a beleza e a ternura das pessoas que nasceram para serem amadas.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Inveja


(foto: Robson Ventura/Folha imagem. Folha de São Paulo, 15/12/09)

Primeira folha. Apareceu na primeira folha do jornal, sabe lá o que é isso? Todos os meninos do Jardim Romano estão se matando de inveja; ficam mais tempo zanzando ali na rua alagada para ver se algum fotógrafo não os acha, procurando não respirar muito por causa do cheiro. Todo mundo tem histórias pra contar, mas o Luís é que teve sorte, foi o único. Só porque ele segurou aquela cobrona imensa e disse que muitas têm sido encontradas no meio das águas fedorentas; disse que até na casa dele tinha aparecido uma, não acreditamos nem um pouco. É certo que não dá mesmo para viver ali, pois tem uma aguaceira que não seca naquele solo pantanoso; mas que está divertido ver helicópteros passando pelo céu, isso está. O duro é que muita gente anda vomitando, tendo diarréia, e o único médico lá do posto não está dando conta. Ouvi dizer que o prefeito pretende tirar as famílias da várzea do Tietê mais cedo; antes a promessa era para 2012 e agora ele disse que vai ser no ano que vem. Será? Espero que o pessoal aguente firme e não morra até lá. Agora, uma coisa é certa: vou ficar bem amigo do Luís, já que ele ficou famoso, pois se ele for convidado para jogar em algum time de futebol, mesmo que seja de uma segundona, ele sabe que eu sou craque e me leva junto!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Domingo

Caía com nobreza indefinida uma chuva mansa e macia, encharcando aquela mesmice de sabores e cores. Longe de todas as ansiosas necessidades natalinas de riscar nomes das listas após pacotes emoldurados por laços e cartõezinhos tantos, havia ali uma quietude enigmática. Amanhecia, e até a manteiga sonolenta contribuía para que os ovos mexidos que ele nos preparava tivessem aquele gosto de índole ébria, amarela. Aos poucos as conversas foram arquitetando-se e tingindo o ar com proveito nevoento, pois os assuntos pairavam com seus suspiros turvos, fazendo-nos refletir até sobre o tombamento do sotaque dos habitantes do bairro paulistano da Mooca, sobre o vestibular para um curso de Latim e sobre o descabido contrabando de tuiuius do Pantanal. A chuva lá fora continuava mansa, mas já nos sentíamos leves e limpos, prontos para figurar na pintura ousada daquela manhã de dezembro úmida, verde, cheia de silêncio obsequioso.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Brinde

Parecia ter fugido de um quadro de Botero. Andava circularmente pisando o asfalto molhado e pensava bobices, pois até seu bocejo era um bocado risonho. Roliça, mais que roliça, chamou nossa atenção, mas não se deu conta disso. Estávamos na cozinha preparando o café quando vimos pela janela sua figura boleada e bojuda dando passos curtos com aqueles pés quase sumidos nos buracos burgueses da rua nada buliçosa àquela hora da manhã. O aroma do café distraiu-nos e a perdemos no meio de nossa conversa cheia de bocados. Vontade de dizer a ela que nosso dia foi batizado de beleza com o bailarismo de seu sorriso gordo. Vontade de lhe mandar um montão de beijos!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Toada

A despedida foi como das outras vezes: olhos inchados, mãos cheias de saudade antes mesmo de partirem. O voo estava atrasado, afinal caía um dilúvio, e os últimos dez minutos tiveram aquele gosto casto de eternidade. Cada um seguiu seu rumo não só com a promessa de cartas cotidianas, dessas que agora existem o tempo todo nas pontas dos dedos, mas também com o compromisso de uma surpresa grandiosa, após aqueles que seriam os seis mais longos meses de suas vidas. E como as coisas sonhadas só têm o lado de cá, um pensou no outro com paciência, amou o sonho do outro, o perfume do outro, o calor do outro, pois assim eram eles, nem parecia que de fato eram daqui (ou parecia?). Novamente o voo atrasou, afinal lá tinha havido uma nevasca, e os primeiros dez minutos do reencontro tiveram aquele sabor ácido de coisa desafinada: ele voltara trinta quilos mais magro, menos intelectualizado, mas preocupadíssimo com seu índice de massa corpórea; ela tingira o cabelo de ruivo, trocara o jeans pelo salto alto e concluíra o primeiro semestre do curso de Mestrado. E porque as coisas reais só têm o lado de lá, a despedida foi bem diferente: os olhos ficaram foscos e as mãos, cheias de alívio, antes mesmo de acenarem meio constrangidas, com aquele gosto lúbrico daquilo que é efêmero, provisório.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Odilon

Neste mês quando tudo se engalana para comemorar a vida, recebo hoje a notícia da morte de meu compadre Odilon. Fica a saudade de momentos importantes, com absoluta certeza de que o mundo para onde ele foi está muito mais cheio de luz e de paz do que este onde estamos nós, tristes com essa separação.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Êxtase

Foi tudo tão rápido, como um gesto desses banais e fortuitos, de que já não se lembra mais antes mesmo de terminar. O caso é que ele nunca deixara de notar aquela perna balançando, cruzada por cima da outra bem estática, tensa. Não olhava propriamente a perna, mas o joelho arredondado que parecia encará-lo marotamente, como se espelhasse bem no meio o constrangimento dele de fingir não ver, vendo. Havia outras pernas e outros joelhos, mas o que despencou no chão quando a cadeira ruiu foi aquele que aos poucos foi sangrando e tornando-se invisível pelas lágrimas que instantaneamente brotavam ali mesmo, do centro da própria imagem dele agora fragmentada pelo chão. Ofereceu-lhe um band-aid e ela nem agradeceu nem sorriu; com displicência, colocou-o sobre a rótula ferida. Enquanto ele recobrava sua própria respiração, que abraçava aquele perfume morno e vermelho, ela sentou-se noutra cadeira, balançando a perna, cruzada por cima da outra, extática.

(foto: bp1.blogger.com/.../mulher+de+perna+cruzada.jpg)