Não é mesmo falta de assunto nem tendepá com as palavras às vezes tão cheias de altruísmo e de amabilidades. Rixa com elas, longe de mim! É que hoje à noite tive um pesadelo, desses dandões que continuam olhando pra gente o dia todo, como se estivéssemos tenutamente balançando, suspensos por uma retouça, cujo assento duro e estreito nos faz segurar firme nas duas cordas de milhares de fios com textura de sisal.Talvez seja excesso de leitura, talvez elas não queiram mostrar-se assim, tão sem privacidade, tão sem liberdade para ficar no seu canto, degustando uma bojarda - ai que delícia provar a doçura dessa pera, cujo nome já faz sentir o excesso sumarento de frescor! Afinal, quanto mais se invadem os mistérios das palavras que se pretendem marotas e atrevidas, mais se enriquece, mas com a sensação de que se infusa, de que se contraem dívidas incalculáveis para com elas; nem os antigos patacões dourados, como aquele que meu pai orgulhosamente levava pendurado no bolso, servem para retrotrair essa sensação de débito. Curioso dar efeito retroativo ao enganar; talvez isso exista só no mundo delas!
Continuo aqui tentando dispersá-las, com cuidado para que um impulso mais agressivo do meu balanço não fira uma ou outra que se encontre com atitude de apatia à frente, provocantemente me encarando com desejo de que nunca mais possa ser por mim utilizada. Indo e vindo, sinto uma espécie de ausência semelhante àquela paralisia de escrita de que Kafka tratou com seu costumeiro ar de coisa soturna. Minhas mãos agarram as cordas que me sustentam com tanta força, que se formam grumos de uma brancura machucadora nunca antes experimentada; o balanço vai e o balanço vem, fazendo-me lembrar aquela mãe que, certa vez, vi empurrando sua filha séria, menininha seriíssima sem sorrisos e com pernas em cruz, sob a laje cinzenta e úmida, onde o sol se negava a aparecer. Ornatos em forma de focinho de animais ferozes surgem aqui e ali; são muflas semelhantes a nutrizes de seios fartos, amamentando a linguagem a que quase me agarro e que me olha com desdém, ratificando aquela ideia de que há dias de ferida iletrada, dias em que as palavras estão machucadas de escárnio e que de maneira alguma comparecem para escancarar o que pensamos, o que desejamos. Ajeito-me da melhor forma que posso na estreitura do banco de madeira de minha retouça, sentindo pelo menos o cheiro doce das bojardas ao longe... E o balanço vai e o balanço vem...




