sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Greve


“Não temos ainda o corpo para velar. Quando tivermos, avisamos.” O que aconteceu depois foi um nada. Nada não, foi um caos, pois havia cento e vinte corpos na frente, esperando o término da greve dos coveiros. Laura, sem forças, tinha um formigamento esquisito no nariz, enquanto Lia tomava a décima terceira xícara de café. Tudo aquilo parecia estar acontecendo numa espécie de funil e uma tinha que ficar ali, diante da outra, naquele quarto que sabia mais silêncio que palavras.
No asilo, Dona Vera aguardava bem vestida com o tercinho de madeira nas mãos cruzadas, obediente até na hora da morte. Sapatos não mais serviam em seus pés inchados por causa dos remédios, o médico bem que avisou que os medicamentos poderiam comprometer a vascularidade das pernas. Foram dezessete anos e meio de espera. As filhas revezaram-se nesse tempo todo sem ao menos um olá, dedicando seus dias ao cuidado da recuperação da mãe, que nunca mais disse nada, nadinha. Prostrou-se e emudeceu para sempre. Fazia tempo que nem saía mais da cama, mas parecia observar tudo, com olhar fundo, assistindo a elas, aos fragmentos de sua família, a uma e a outra.
Laura casou-se e de vez em quando levava os gêmeos para verem a avó. Nem as crianças foram capazes de fazê-la sair daquele processo catatônico doentio. Lia dedicou-se a trabalhos voluntários e nunca teve tempo de cuidar de fraldas e de panelas. Agitada, comprou televisão e trouxe livros, jornais e comprou filmes para Dona Vera ficar em contato com o mundo. A quem perguntava pela mãe, ambas respondiam que se ia recuperando, aos poucos, pelo menos nesse ponto as irmãs estavam de acordo. Não permitiam visitas de estranhos, todos eles curiosos para conferir o que já sabiam: dona Vera desistira de viver e durava, durava, seguindo a lei que manda acordar, comer, dormir, acordar... Aliás, às vezes dona Vera nem acordava, emendando dia e noite, quem se importava com isso?
Tudo também é partida. De tanto se esquecer de abrir os olhos, dona Vera deixou-os fechados definitivamente. Foi bem no dia em que os meninos estavam com catapora e Laura não pôde ir ver a mãe. Foi bem no dia quando Lia cuidava da festa junina da creche e não pôde ir ao asilo. Também foi o dia em que os coveiros fizeram greve em São Paulo e muita gente morreu, apesar disso. Como todos os dias. Laura levou o vestido florido largo, largo. Como ela ficava bem naquela roupa! Mas a ausência de palavras e de vontade de falar também faz emagrecer, faz sucumbir. Só as flores da roupa estavam viçosas, apesar de envelhecidas e com cheiro de pó. Lia levou os sapatos de saltinho grosso, mas eles não serviam mais para nada, para nada. Os pés seriam cobertos de margaridas, certamente mais vívidas que as do vestido.
A morte da mãe quebrou o último dos laços que ligavam Laura a Lia. Com o enterro, finalmente, estariam liberadas de se encontrar, mesmo que de passagem, cotidianamente. Mas o enterro tardaria, greve mais que inoportuna! Ficaram até alegres com a perspectiva de independência, mesmo diante no rosto mirrado de dona Vera ainda ali, com o tercinho de madeira nas mãos cruzadas sobre o peito. O direito à greve é sagrado, e Laura começou a sentir uma tontura besta, uma vontade de falar sobre isso com Lia, será? O carro funerário iria demorar e a notícia já se tinha espalhado, o celular não dava trégua. Esperassem, o que fazer? Apenas o semblante de dona Vera estava sereno, como há muito não se via. Lia pensou em falar sobre isso com Laura. Talvez.
Cansaram-se e sentaram-se. Uma de cada lado. Os coveiros exigiam aumento de trezentos reais. No quarto, principalmente no inverno, o asilo não dispunha nem de ventilador e o corpo estava ali, sem refrigeração alguma. Iria demorar o sepultamento. Quando o médico lhes entregou a certidão de óbito, ambas surpreenderam-se com o fato de que nunca mais se veriam; a vida é para quem continua vivendo, mas entre elas o vínculo se quebrava ali. Sem dona Vera, sem o amor dela, que nunca lhes fora claro enquanto sua mudez ainda as envolvia, tornou-se nítido e valioso. Descobriram Laura e Lia, que uma faria falta à outra, o que fazer? Os olhares das irmãs se cruzaram, fundos, como o de dona Vera que não mais as via, pequenina como uma criança, à espera do serviço funerário. Todos têm direito à greve, felizmente. 

(imagem: http://www.google.com.br/imgres?q=senhora+de+m%C3%A3os+postas)

7 comentários:

  1. A finitude é real, mas muitos não a aceitam e pincelam um horizonte onde tudo é maravilhoso. Permitem-se encontrar desculpas, ainda que esfarrapadas, para fugirem da realidade dos fatos. Sua crônica deixa-me bem claro a "greve do relacionamento"! Ótima reflexão de vida! Parabéns, Maria Teresa!

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  2. Célia:
    "Greve do relacionamento", gostei muito disso! E como há esse tipo de greve...
    Obrigada pelo comentário generoso.

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  3. Acredito que Laura e Lia fizeram o que podiam,fizeram o seu "melhor"...quando as pessoas desistem da vida,não há remédio,não há médicos,pessoas, parentes nada enfim que consiga reverter o processo.Ótimo texto,Teresa,como sempre ! Li e reli é a realidade na ficção,parabéns!
    Beijos!

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  4. Roseli:
    Como fico feliz quando a vejo por aqui. Muito obrigada pela visita carinhosa.
    Beijos

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  5. Entendo apenas que, à vista da mãe, em seu último abrigo, as filhas poderiam ter encontrado o elo de união que lhes faltava, e recomeçar sua relação fraternal, o que seria exemplo para netos de D.Vera e um estímulo de vida para toda a família. Afinal, a morte também é uma lição...
    Apesar de greves... Bj RUTH

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  6. Marcelo Sguassábia9 de agosto de 2011 06:12

    Belo conto, Maria Teresa. Muito bem escrito e com um argumento pra lá de original. Parabéns!

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  7. Ru:
    A intenção foi essa mesmo, lições se aprendem até nos últimos momentos.
    Beijos


    Marcelo:
    Agradeço sua visita sempre tão bem-vinda.
    Abraços

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