terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Suficiência

A sonata  do telefone me acordou como um soco. Senti uma suspeita azeda e atendi com um alô misturado de sonolência e de saliva seca.
 
Quando ouvi pela primeira vez aquela música de Mozart, estavam ambos chorando com semblante de surpresa ao me verem no meio da sala de poltronas de veludo. Meu pai ainda segurava seu copo de uísque e minha mãe, de joelhos, catava os sedativos espalhados pelo chão. Ela usava uma saia florida que se espalhava, escondendo de mim a sutileza que os meus sete anos e meio nada míopes enxergaram com nitidez. Os dois me olharam com simpatia e me disseram que choravam porque a música era triste triste, então só me restou chorar também, sentada entre as flores e os comprimidos.
 
Sou feita de fragmentos de dor e encontro na música o sustento de minha alma. Nunca os abandonei, apesar de sentir-me transparente entre os dois. Consideram-me filha de valor nenhum, mesmo assim, encontrei neles a inspiração da minha arte e do meu suplício: duas pessoas se destruindo aos poucos e amando-se perdidamente sem nem mesmo saber disso.
 
Por que atendi? Passei a vida desprezando amores, alguns até que suscetíveis de sinceridade, sérios, sem sexo, beirando à santidade; outros sôfregos, gulosos, glutões. Atendi e devo dizer alguma coisa. O ar tem cheiro amargo de bebida e minha voz abafada engole flores murchas, carcomidas, meu jeito de querer bem. Plenitude? Apenas suficiência só.               
 
Ainda não acabei de concluir meu réquiem.

            (imagem: BV‑Requiem.jpg lauramarsiaj.com.br 447 × 600 - Réquiem sobre papel, 2006)

12 comentários:

  1. O cotidiano de um casal, nem sempre fácil de ser entendido por seus filhos... A marca que esse cotidiano não entendido vai deixando nesses filhos pela vida a fora... Às vezes, nem a maturidade traz o entendimento...

    Beijos

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  2. Dulce:
    Infelizmente nem só de coisas brilhantes e puras vivem algumas crianças... Infelizmente...
    Beijos e obrigada

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  3. Relacionar-se uma simetria a dois ou mais que assim precisa ser... para não se extraviar de sentimentos...
    Abraço, Célia.

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  4. Célia:
    Como dizia Guimarães Rosa, "viver é perigoso"...
    Beijos

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  5. Texto muito bonito e corajoso, esse, Maria Teresa.
    Gostei demais.

    Beijo beijo.

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  6. Minha linda Maria Treza, adorei seu comentário. Respondi lá, mas tinha que vir até aqui. E, eis que encontro mais um texto cheio de sensibilidade e de vida.
    Parabéns pela habilidade de expressão e simpatia.
    Beijos!!!

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  7. Dade:
    Você, sempre. Obrigada.
    Beijos


    Limara:
    Você é daquelas pessoas que sempre aparecem trazendo luz. Que delícia!
    Beijos

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  8. Nunca se acaba a oração pelos mortos, sobretudo nestas circunstâncias.
    Lindamente escrito, Teresa.

    Lamento estar tão ausente, sendo sincera admiradora dos seus textos.
    Tentarei voltar mais vezes.

    Beijo

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  9. Fernanda:
    Sei como é a correria e também eu me perco no meio dela. No entanto, sua visita aqui é sempre uma festa. Obrigada.
    Beijos

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  10. Minha amiga, sempre amiga! Como me emocionei...Lindo texto! Beijos cheios de carinho.

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  11. Querida Dalva:
    Uma alegria grandona vê-la por aqui. Parece que você até está bem perto...
    Beijos

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  12. Verdadeiramente um requien... Quanta angústia oculta e quanto amargor. No entanto a alma se liberta e ssobrevive. Isso é suicência?

    Bj Ruth

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