domingo, 8 de janeiro de 2012

Doçuras


Tinham cheiro doce e amarelado. Fresco. E estavam por toda parte invadindo a grama verde e quieta, quieta. Naquela ausência de ruídos, despencavam com um baque surdo e ficavam ali bastante convidativas. Impossível falar delas sem palavras gordas, sem adjetivos que compliquem tudo, com sua grande variação de humor. Eram tantas e pequenas e arredondadas e enormes e oblíquas de sabor açucarado, que ficava incompreensível sabê-las aparentemente distraídas dele, sentado no banco de pedra embaixo da mangueira. Faziam-lhe companhia, no entanto, e registravam a melodia de suas lembranças desde o dia quando colocou, com a ajuda dos meninos, aquele caroço na terra avessa a frutas suculentas. Olhava suas mãos enormes de pele áspera e vincada e via um a um sair pelo portão de ferro com a boca ainda lambuzada do amarelo sem disfarces nem reservas. Dali para lugares distantes bem distantes. De vez em quando, uma lágrima descia-lhe pela cara poeirenta, mas era só uma pequena lágrima sem significado e vista por ninguém. Escondia bem aquela dor que agora deu de sentir, uma espécie de angústia camuflada por uma placidez de rotinas encapotadas, como se tivesse a vida a zerar; gostava pelo menos de estar ali, remexendo as frutas maduras com os pés inchados, sem impedir que os passarinhos também degustassem o sabor melado com a peraltice própria de sua liberdade alada. Às vezes até cochilava sentindo a brisa que balançava as folhas e derrubava uma e outra manga; às vezes até catava alguma do chão e revivia e renovava-se e reconciliava-se com a solidão, bastante distraída, seduzida também ela pela gulodice de cheiro doce e amarelado.

10 comentários:

  1. Adivinha-se toda uma vida passada e lindamente repassada à sombra de uma frondosa mangueira... Uma doçura só, de texto...

    Beijos

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  2. Dulce:
    Obrigada, querida amiga. Doces são suas palavras.
    Beijos


    Manuel:
    Estão aqui para brindar sua visita!
    Grande abraço

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  3. Seu texto me transportou de imediato ao pomar de mangas de minha avó. Delícias de frutos. Delícia de crônica. Grande abraço, Maria Teresa.

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  4. QUE BOM SERIA TER UMA MANGUEIRA?!

    PESQUISEI...E VI QUE É MANGUEIRA... NA MINHA TERRA SERÁ UMA LIGAÇÃO A TORNEIRA PARA CORRER ÁGUA.

    MAS QUEM ME DERA TER UMA A DAR FRUTOS, JÁ QUE OS ADORO!!! JÁ HOJE COMPREI!!!
    BONITO E DE LINDA DESCRIÇÃO SEU TEXTO!!!

    1 BEIJO LÍDIA

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  5. Maria Teresa
    Apetece "provar", de tão delicioso!
    Beijinho
    Quicas

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  6. Quem me dera estar naquele banco, sob a fronde da majestosa mangueira e desfrutando do fruto tão saboroso, tão... tão... delicioso. Quase sinto o suco opimo da manga veerde-amarelada, caindo ao meu redor, saciando meus olhos e meus desejos... APROVEITE! RUTH

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  7. Marcelo:
    Delícia de comentário.
    Abraços


    Lídia:
    Incrível como as palavras nos levam a caminhos tão diversos. É por isso que são tão cheias de sedução.
    Beijos


    Quicas:
    Verdade! Tempo de mangas fica mais perfumado.
    Abraços


    Ru:
    O banco está à sua espera!
    Beijos

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  8. Suas palavras se transformam em cores, cheiros e sensações sensoriais que parecem pular da tela direto para minha sala e minha vida.

    Obrigado por compartilhar essas imagens.

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  9. Ara:
    Seja muito bem-vinda entre meus botões. Obrigada pelo comentário tão gentil.
    Abraços

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