Tinham cheiro doce e amarelado. Fresco. E estavam por toda parte invadindo a grama verde e quieta, quieta. Naquela ausência de ruídos, despencavam com um baque surdo e ficavam ali bastante convidativas. Impossível falar delas sem palavras gordas, sem adjetivos que compliquem tudo, com sua grande variação de humor. Eram tantas e pequenas e arredondadas e enormes e oblíquas de sabor açucarado, que ficava incompreensível sabê-las aparentemente distraídas dele, sentado no banco de pedra embaixo da mangueira. Faziam-lhe companhia, no entanto, e registravam a melodia de suas lembranças desde o dia quando colocou, com a ajuda dos meninos, aquele caroço na terra avessa a frutas suculentas. Olhava suas mãos enormes de pele áspera e vincada e via um a um sair pelo portão de ferro com a boca ainda lambuzada do amarelo sem disfarces nem reservas. Dali para lugares distantes bem distantes. De vez em quando, uma lágrima descia-lhe pela cara poeirenta, mas era só uma pequena lágrima sem significado e vista por ninguém. Escondia bem aquela dor que agora deu de sentir, uma espécie de angústia camuflada por uma placidez de rotinas encapotadas, como se tivesse a vida a zerar; gostava pelo menos de estar ali, remexendo as frutas maduras com os pés inchados, sem impedir que os passarinhos também degustassem o sabor melado com a peraltice própria de sua liberdade alada. Às vezes até cochilava sentindo a brisa que balançava as folhas e derrubava uma e outra manga; às vezes até catava alguma do chão e revivia e renovava-se e reconciliava-se com a solidão, bastante distraída, seduzida também ela pela gulodice de cheiro doce e amarelado.
Adivinha-se toda uma vida passada e lindamente repassada à sombra de uma frondosa mangueira... Uma doçura só, de texto...
ResponderExcluirBeijos
Um que cheirinho a manga...
ResponderExcluirBeijo.
Dulce:
ResponderExcluirObrigada, querida amiga. Doces são suas palavras.
Beijos
Manuel:
Estão aqui para brindar sua visita!
Grande abraço
Seu texto me transportou de imediato ao pomar de mangas de minha avó. Delícias de frutos. Delícia de crônica. Grande abraço, Maria Teresa.
ResponderExcluirQUE BOM SERIA TER UMA MANGUEIRA?!
ResponderExcluirPESQUISEI...E VI QUE É MANGUEIRA... NA MINHA TERRA SERÁ UMA LIGAÇÃO A TORNEIRA PARA CORRER ÁGUA.
MAS QUEM ME DERA TER UMA A DAR FRUTOS, JÁ QUE OS ADORO!!! JÁ HOJE COMPREI!!!
BONITO E DE LINDA DESCRIÇÃO SEU TEXTO!!!
1 BEIJO LÍDIA
Maria Teresa
ResponderExcluirApetece "provar", de tão delicioso!
Beijinho
Quicas
Quem me dera estar naquele banco, sob a fronde da majestosa mangueira e desfrutando do fruto tão saboroso, tão... tão... delicioso. Quase sinto o suco opimo da manga veerde-amarelada, caindo ao meu redor, saciando meus olhos e meus desejos... APROVEITE! RUTH
ResponderExcluirMarcelo:
ResponderExcluirDelícia de comentário.
Abraços
Lídia:
Incrível como as palavras nos levam a caminhos tão diversos. É por isso que são tão cheias de sedução.
Beijos
Quicas:
Verdade! Tempo de mangas fica mais perfumado.
Abraços
Ru:
O banco está à sua espera!
Beijos
Suas palavras se transformam em cores, cheiros e sensações sensoriais que parecem pular da tela direto para minha sala e minha vida.
ResponderExcluirObrigado por compartilhar essas imagens.
Ara:
ResponderExcluirSeja muito bem-vinda entre meus botões. Obrigada pelo comentário tão gentil.
Abraços