domingo, 23 de outubro de 2011

Prisões


Olavo saía do nada e ia para lugar nenhum. Como se fosse uma bola meio murcha rolando na grama molhada. Então não chegava. Acostumou-se a ser assim, fechado dentro de casa, transparente, visível apenas para si, para Aurora, a faxineira das quartas-feiras, para a garrafa de vodca e para suas contas que se avolumavam.
Trabalhava em casa como revisor e comunicava-se com textos, geralmente muito mal escritos. Lutava com eles e enviava-os a seus respectivos donos com as correções que os tornavam apenas menos sofríveis. Sentia pena das palavras que se aprisionavam ali, asfixiadas. Olavo também não procurava pessoas, aliás, evitava encontrá-las. Quer dizer, mantinha contato com elas pela rede social, mas isso não era mesma coisa: esmagava vocábulos na tela do computador desprezando regras e vírgulas,  mas perguntava, respondia, curtia e, só para pensarem que ele continuava o mesmo, até postava algumas fotos antigas de seu tempo de diálogos ao vivo.  
Um dia deixou de fazer a barba e achou que isso não acarretou absolutamente nenhum problema. Dois dias também não. Três,  quatro.  A cara ficou meio ossuda e cinzenta, dando mais evidência a suas orelhas de abano, mas Olavo nem reparou. Passou a beber cada vez mais cedo. Comia às vezes, quando se lembrava, e foi perdendo o apetite. Então começou a ouvir vozes chamando-o, chamando-o. Olaaaavo. Preocupou-se com o que poderiam pensar dele e passou a ler alto os textos que corrigia, para afugentar aquilo. Depois, fez mais algumas postagens contando algumas aventuras nas praias de Miami. Inventadas todas. Mas criou um álbum de fotos copiadas e coladas da internet de arrepiar! Como não se preocupou com a conta do celular, ficou incomunicável, pois o telefone fixo há muito não existia por falta de pagamento.
 Certo dia, desesperado com a redação terrível da tese de doutorado que revisava, parou um pouco para espairecer, foi à cozinha beber água e deu uma passada no banheiro. Olaaavo, Olaaavo! Olhou-se no espelhinho quebrado na parede de azulejos pintados de amarelo e não se enxergou. Olaaavo! Olhou de novo e viu um rato pardo roendo as palavras riscadas da última página revista, bem em cima da pia. 



No dia da limpeza, a faxineira abriu a porta e não encontrou Olavo trabalhando. Ele não estava e nem chegou mais tarde. Aurora fez o que tinha que fazer, caprichando na arrumação do escritório, com cuidado para não misturar os papéis espalhados; satisfeita, deixou a casa com cheiro de lavanda daquele produto cor-de-rosa com rótulo de cara de bebê e fechou todas as janelas. Na hora de sair, no entanto, viu um rato enorme em cima da mesa de trabalho do patrão e quase desmaiou de susto. Saiu correndo, deixando até a porta aberta, de tanto pavor. No elevador, ainda pôde ouvir nitidamente: Olaaavo!

(http://www.google.com.br/imgres)

15 comentários:

  1. Uau... Maria Teresa!! Homens e ratos? Isolamentos? BAgunça generalizada? Vícios todos? E, mentiras para si mesmo? Enredar-se em uma história que não lhe pertence!! Por demais real nos dias de hoje! Quantos "Olaaaavos" por ai!! Parabéns pela sua crônica da vida.
    Abraço, Célia.

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  2. Célia:
    Às vezes, a vida parece mesmo bem bagunçada, não é? Obrigada por seu comentário generoso.
    Beijos

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  3. Serão todos os misantropos e solitários, nestes tempos de "hipercomunicação" similares a Olavo? Prefiro pensar que não... Um toque kafkiano: bom esteio pra uma narrativa. Gostei.

    Um abraço.

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  4. Halem:
    Suas sugestões são sempre muito bem-vindas! Obrigada.

    Aproveito para dizer que gostei muito de suas observações sobre o Prêmio Jabuti. Só não postei isso no Sinistras Bibliotecas, porque não descobri o lugar dos comentários. Como sempre, argumentos muito coerentes.
    Grande abraço

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  5. Sombrio, assustador, filosófico. E, acima de tudo, muitíssimo bem escrito. Parabéns, Maria Teresa.

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  6. Marcelo:
    Obrigada. Feliz feliz com sua visita.
    Abraços

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  7. Sua crônica me ajuda a entender melhor o que me disse hoje um colega: ele aprendeu a viver sem os óculos de grau. Disse que o mundo borrado era mais belo do que a clara realidade...

    Um beijo.

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  8. Nivaldete:
    E isso dá pra assustar, não é? Histórias como o do filme Melankolia parecem tornar-se mais próximas...
    Bjos

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  9. E o pior é que esses olavos da vida parecem se multiplicar a cada dia, já reparou? Cada qual a seu jeito. E as redes sociais têm muito pouco de sociais, pra dizer a verdade.
    Ótimo seu texto, Maria Teresa.
    Beijo beijo.

    Também estou falando de solidão, hoje, mas de outro tipo - aquela solidão que às vezes é bem-vinda.

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  10. Às vezes fico pasma com certeza da comunicação, muitas vezes tão ilusória, das redes sociais. A falta do olho no olho não me convence nem me satisfaz. Exceção feita a essa nossa "conversa ao pé da cerca" por aqui, como costuma dizer uma grande amiga.
    Beijo beijo

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  11. Até onde um homem sem perspectivas na vida se deixa levar?...
    Não pude deixar de lembrar Kafka e sua Metamorfose...

    beijos

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  12. Dulce:
    O pior é que cada vez mais o pensamento kafkiano anda nos circundando, não é?
    Bjos com uma dose extra de otimismo e de carinho.

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  13. Que descuido! Trocou suas necessidades e iniciativas pelo ócio em que se abandonou. Quem saiu ganhando foi o rato que acabou com a brincadeira. OK

    bj Ruth

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  14. O pior é que grande parte da humanidade está-se transformando em Olavos...
    Um abraço

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  15. Ru:
    Há ócios e ócios... Obrigada pela visita fidelíssima.
    Bjos


    Elisa:
    Isso é assustador, não?
    Grande abraço

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