sexta-feira, 31 de julho de 2009
Quadrilha
Essas coisas de pensar me acercam com sedução tamanha, que acabo distraída, talvez não seja essa caracterização a mais precisa; as ideias (ficou muito esquisita a falta do acento) vão e vêm, embaralhando-se com trejeitos de atualização instantânea e sem tréguas: naus perdidas em piruetas de andarilhos em busca de labirintos espelhados; às vezes isso ocorre estaticamente, como observei na história dos dois primos acometidos pela malária no vau da Sarapalha, para mim, um dos mais belos contos de Rosa, com sua linguagem poética melodiosa às vezes mais atraente que a própria história do amor infeliz (será?) de ambos pela mocinha que nunca compreendera a dimensão daquele sentimento que ficou ainda mais terno e duradouro no campo das lembranças que afugentavam a morte iminente; um amava a mulher do outro e ela não amava ninguém, parece até poema do Drummond; soube da encenação da história pelo grupo de teatro Piollin por agora, mas tenho certeza de que não será mais comovente que a apresentação daqueles meninos no colégio, um dos instantes mais cheios de poesia e de plenitude que presenciei por lá; nostalgia encantadora!
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Lágrima
O fio de água corria pelo box, deixando ainda mais úmido o dia já encharcado pela chuva que não dava trégua e alagava o campinho diante de minha varanda. A menina de 14 dias dormia plácida no colo do pai, sem se dar conta da morte da mãe, que não suportara a malfadada gripe e que não pudera acalentar sua filhinha de bochechas cor-de-rosa. Outras crianças continuavam em casa depois do tempo de férias, indóceis, diante da TV que alternava desenhos com ensinamentos práticos sobre a necessidade de lavar mais as mãos e dispensar abraços e beijos. O barulho ensurdecedor do aspirador engolia o pó dos tapetes, oferecendo aparente sentido de limpeza a quem sai logo cedo e volta no escuro, sem tempo de prestar atenção na orquídea amarela do vaso da sala. Os e-mails chegavam convocando para passeatas no dia da pátria, iludindo quem não teve oportunidade de ler que 70% do Conselho de Ética do país está com ética comprometida. Mas o cheiro de feijão invadia o ar, os palmeirenses festejavam a vitória na estréia do novo técnico, o Nando Reis escrevia um texto lindo sobre a chuva que não parava e os russos ofereciam aos americanos uma escultura gigantesca contra o terrorismo no mundo. Em forma de lágrima.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Azul
Nada melhor que dizer, num dia cinzento e chuvoso como o de hoje, que os sonhos são azuis. Quando li no jornal de ontem que corante azul de comida trata lesão medular e imaginei o ratinho de patinhas azuis andando novamente, tive impressão de que deve ser assim mesmo. Aquele ratinho do experimento deixou de ser paraplégico, mas ganhou, além das patinhas, orelhas e focinho cor de anil. Lembrei-me então de Cruz e Souza, o poeta simbolista catarinense, que tanto quis encontrar o sentido de plenitude e que, num momento de grande maturidade literária, registrou um espaço onírico interior também azul, cheio de sinfonia. Para a ciência, azul foi sinônimo de esperança; para o poeta, traduziu o lugar da alma, da harmonia, da paz. Bom saber que o céu não está lá no alto, mas aqui dentro.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Pipa
A pipa vermelha e azul em forma de pássaro rodopiava no céu, enquanto o mar de ondas gulosas avançava na areia, desarrumada por tantos pés, naquele que havia sido um belo dia de sol. O crepúsculo anunciava-se, mas ele insistia em sua leitura sobre a fome, com aparência tranquila, em paz, apreciando o cheiro salgado da natureza estonteante. A pipa continuava pairando e sobrevoando, com altivez digna de quem está acima do mar, da terra, dos homens. Então ele parou de ler, conferiu as fotos do dia, bocejou e cantou com sua cara bonita e bronzeada. Não consigo dimensionar aqui a sensação de harmonia que senti, ao ouvir aquela melodia. E a pipa estava lá, observando tudo...
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Poltronas
Ontem li no Estadão sobre as experiências de leitura de muitas pessoas conhecidas e pude ver o espaço escolhido por cada uma para invadir o universo das palavras. Havia poltronas aconchegantes, reclináveis, cadeiras de espaldar ereto diante de mesa apinhada de livros, pilhas e pilhas deles espalhadas por bibliotecas cuidadosamente projetadas ou mesmo dentro de caixotes improvisados. Anotei até alguns títulos sugeridos, mas fiquei mesmo impressionada com o deleite de um menino de 10 anos, já viciado em olhar o invisível com olhos de lince, neste tempo em que as pessoas sonegam o valor do que normalmente fica escondido nas entrelinhas. Imagine fazer uma aposta com um amigo para ver quem acabaria primeiro de ler uma obra de 200 folhas, numa só tarde! Aquele menino de fato me restituiu um pouco a esperança e lembrou-me a menininha do conto Felicidade Clandestina da Clarice, que fingia que não tinha o Reinações de Narizinho, só para depois ter o susto de o ter. Às vezes, também eu adio o momento de começar um livro, como se fossem imprescindíveis algumas condições, sem as quais a leitura não pudesse ser iniciada de maneira alguma. Porém, quando as palavras começam, saltitantes, a dançar e a compor sua história, parece mesmo que estou nadando devagar num mar suave e perfumado, e que as ondas me levam e me trazem com ternura.
domingo, 26 de julho de 2009
Pimentas
Chegamos cedo para ver o filme, cujo nome já nos atraía feito ímã: Há muito tempo que te amo. Deu tempo de tomar um café e de passear pela livraria. Outro ímã. Percorrer os corredores abarrotados de pilhas de exemplares que ansiávamos por folhear era sempre um prazer extra. Queríamos levá-los todos para casa. Principalmente aquele que nada mais era do que uma carta, uma longa carta, que nunca foi enviada, de Kafka a seu pai. E o de pimentas, cheio de ilustrações, dessas enormes, que esclareciam dúvidas cotidianas sobre a diferença entre a dedo-de-moça e a malagueta, entre tantas outras. Acho que o ardor natural daquelas pimentas, levamo-lo dentro de nós para o cinema. Não sei se foi por isso, mas apesar de apreciarmos muito o que vimos, a história foi tão triste, que só deu vontade de chorar por dentro.
sábado, 25 de julho de 2009
Fronteiras
Tênue é o limite entre o que marca que do lado de cá é um espaço e do lado de lá, outro. Causa estupor atravessar fronteiras, como se ouviu contar a respeito do que fez o deposto presidente de Honduras, mais conhecido agora que passou de um lado para outro, onde diziam que já não era bem-vindo. Mais tênue ainda esse limite, se os espaços não são objetivos, mas abstratos, etéreos, esfumaçados. Complicado determinar a linha divisória entre a cafonice e a elegância, entre a grosseria e a gentileza, entre a vaidade e a modéstia, entre a lucidez e a loucura. O quase centenário Eulálio, personagem do Leite Derramado, livro de Chico Buarque, que estou lendo agora, discute muito a instabilidade dessa obsessão humana de passar por baixo da corrente que divide o aqui e o ali, nem que seja por alguns pouquíssimos instantes.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Modelos
Ambos deveriam ter cerca de 5 anos e chamaram minha atenção pelo jeito como imitavam seus modelos. Ele era um menininho alto, confiante e rechonchudo. Empurrava um carrinho (desses que têm uma bandeirinha colorida na frente) com destreza, pelos corredores nem sempre espaçosos do supermercado. O pai, também alto, ia conversando sobre as compras que fariam, seguindo uma lista imaginária de coisas gostosas que comeriam vendo TV, imagino. Os olhos dos dois brilhavam e eles sorriam. Ela era baixinha e miúda, como a mãe. Caminhava sob a chuva fininha que castigava a cidade, já alagada desde o dia anterior. Cada uma delas levava um guarda-chuva (desses que viram, quando venta muito) e olhava para frente com muita atenção; de vez em quando, uma esbarrava na outra, mas nem assim falavam nada, seguindo o caminho conhecido de todos os dias, imagino. Os xales das duas eram lilases e elas sorriam.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Tapetes
Eram dois tapetes, que tinham um quadriculado bem comportado. Um era um pouquinho mais escuro que o outro, mas os dois eram do mesmo tamanho. Ambos iriam enfeitar o chão da sala de visitas e tornar mais aconchegante aquela casa com cheirinho de café. Café coado na hora. As pessoas iriam pisar nos quadrados dos tapetes e iriam sentar nos sofás de couro frio, mas tomariam o café nas xícaras de borda azul e ficariam aquecidas com a ternura das conversas de suas rotinas às vezes alegres, às vezes nem tanto, não importa. Comeriam biscoito de polvilho e deixariam cair algumas migalhas nos tapetes. Então o quadriculado deles descansaria daquela rigidez que têm todos os quadrados e a vida seguiria mais satisfeita e mais feliz.
Pílula
Foi assim que esse blog surgiu: a partir da palavra pílula, que acabei de escrever numa mensagem para outro blog. Cada palavra não é mesmo uma espécie instantânea de conteúdo, que se insere dentro de outros conteúdos acolhedores? Pílula de sabor perfumado, de significado denso, de aparência sedutora. Pílula com requintes de cura para a inspiração que brota e não quer ficar enclausurada. Pílula que revela o intangível e que debocha, ironiza, pranteia. Mas que também graceja, mordisca, apetece. Apenas pílula.
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